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julho 08, 2003
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (10)
MIRIAM MAKEBA - "GUINEA YEARS"
Miriam Makeba
Guinea Years
Sterns / Mundo da Canção

Aos 72 anos, pode dizer-se que Miriam Makeba já viveu – como os gatos – 7 vidas, no mínimo. Resistiu a tudo. A 4 (quatro!) divórcios. À morte da sua filha. A acidentes de viação e aviação. À perseguição dos Afrikaans e do FBI, devido à sua luta pelos direitos civis dos negros. A 30 anos de permanente exílio. Ao “apartheid” e às contra-ofensivas governamentais norte-americanas dirigidas ao “black power”. Makeba não esmoreceu, antes pelo contrário. Foi a porta-voz do presidente guineense (de Conacri) Sékou Touré em Nova Iorque e embaixatriz africana da ONU, trabalhando de perto com a FAO (Food and Agriculture Organisation), no sentido de fazer lobbying pela diminuição da fome no mundo. Aquela que o governo sul-africano apelidava de subversiva, mesmo que cantasse canções de amor, conquistou o prémio de paz Dag Hammarskjold (antigo secretário geral das Nações Unidas) de 86.
À parte da carreira político-social, na música, Makeba coleccionou recordes. Não pelos mais de 40 discos que gravou, mas por ter sido a primeira artista africana a conquistar um grammy em 65, com “An Evening With Harry Belafonte”; e a atingir o top ten de singles norte-americano em 67, com “Pata Pata”.
“The Guinea Years” é uma antologia que retrata o tempo em que Makeba viveu exilada na Guiné-conacri, entre as décadas de 70 e 80. Depois de ter enfrentado problemas com a justiça norte-americana, devido ao matrimónio que havia contraído (em 68) com o líder radical dos Panteras Negras, Stokely Carmichael. Um disco que mostra acima de tudo a grande veia soul-jazz, a expressividade vocal de uma artista que cresceu a ouvir Duke Ellington, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, e a extrema habilidade para cantar em nove línguas (francês, inglês, arábico, xhosa, kikongo, maninka, fula, nyanja e shona). Em suma, a excelente Miriam Makeba que ainda nos brindava com o seu melhor. Ainda não tinha descambado para a afro-pop fácil e plástica de “Homeland” (2000). Hipnótico. Belo. Indispensável.
Publicado por Luís Rei às julho 8, 2003 12:53 PM