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julho 08, 2003
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (7)
SUSANA BACA - "ECO DE SOMBRAS"
Susana Baca
Eco de Sombras
(Luaka Bop / EMI)

Quem teve a oportunidade de assistir à actuação de Susana Baca no festival Cantigas do Maio, há uns anos atrás, verificou que a sua música pode ser comparada a um prato de alta cozinha francesa. A voz de Baca reúne todos os ingredientes que lhe conferem o título de diva afro-peruana: simpática por natureza, proporciona-nos estados de espírito antagónicos, ora de uma fragilidade radiante de criança, ora de profundidade e sentimento trágico, cuja aura sombria se encontra embebida no fado e no tango, tornando-a para muitos numa espécie de Cesária Évora das Américas.
Bastaria a Susana Baca uma simples guitarra para nos fazer render à forma como interpreta a sua poesia. Mas a sua música tem muito mais que a já por si só sedutora voz. É feita de uma complexidade acústica notável, vivendo muito de preciosidades rítmicas, marcadas por instrumentos como o cajón, quijada, yembe, que os escravos negros reconstruíram, quando chegaram ao Perú. A prestação do colectivo sul americano já é, por si só, sublime. E que dizer agora do confronto que Susana Baca e a sua banda teve, neste disco, com outros músicos de estúdio, de quadrantes que vão do jazz e da pop à música improvisada?
“Eco de Sombras” resulta num trabalho de grande sensibilidade artística, não só porque a base é consistente e dela emana o peso e a alma da música dos escravos peruanos que Baca recuperou, através das extensivas recolhas que efectuou, como também o recheio – vulgo arranjos “ocidentais” – intensificam o ambiente que se vive em “Eco de Sombras”. É a cereja em cima do bolo que não peca por excesso (facto comum nas fusões que hoje em dia se fazem). A guitarra de Marc Ribot é mágica, feita de pequenos pormenores que imprimem maior amplitude ao refinamento sonoro do disco, comparável àquilo que Ry Cooder fez em Buena Vista Social Club. John Medeski (piano e órgão), Cyro Baptista (percussões), Greg Cohen (contra-baixo) e Rob Burger (acordeão e órgão), que absorveram a música de Baca, contribuem também para uma obra que roça a perfeição.
Publicado por Luís Rei às julho 8, 2003 04:38 AM