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julho 02, 2003

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (1)
ALI ALI FARKA TOURÉ - "NIAFUNKÉ"

Ali farka Touré
Niafunké
World Circuit / Megamúsica

Antes da explosão cubana, através do projecto Buena Vista Social Club, Ry Cooder já tinha gravado “Talking Timbuktu” com Ali Farka Touré. Um álbum de grande cumplicidade que viria a conquistar um grammy. Se em termos artísticos, “Talking Timbuktu” representou a afirmação definitiva de um blues men do Mali que, a partir daí, intensificou os seus espectáculos pelos quatro cantos do mundo, em termos pessoais acabou por provocar uma certa negação da proeminente carreira artística, em detrimento de valores mais elevados. Longe de morrer de amores pelo mundo do espectáculo, muitas foram as vezes que Touré pensou em abandonar a vida de músico. Sentimento que se reflecte nas (últimas) raríssimas aparições ao vivo, fora do seu ambiente natural: a aldeia de Niafunké, situada na ponta do deserto do Sara e ao redor do Rio Níger, onde não existe electricidade nem água canalizada. Aí, Ali Farka Touré, pai de 11 filhos com 60 e muitos anos de idade, tem colocado o cultivo da terra acima da música, investindo todo o dinheiro que conquistou com esta actividade (para ele) secundária em máquinas agrícolas. Para quem sentia um certo desconforto em andar em sucessivas digressões mundiais por perder a essência da raiz, seria inevitável a gravação de Niafunké no «lugar de origem desta música - o Mali profundo», registado por um estúdio móvel que se alimentou de um gerador.
”Niafunké” é, provavelmente, o grande álbum da vida de Ali Farka Touré e um sério candidado a melhor álbum world da década de 90. Se em “Talking Timbuktu” a produção de Ry Cooder tinha criado uma maior amplitude sonora que ajudou à construção de grandes canções mais adocicadas ao ouvido ocidental, em “Niafunké” assiste-se ao regresso à terra e à sonoridade (mais trabalhada é certo) que primeiras gravações que “Radio Mali” (de 96) documentam. Um retorno de quem amadureceu a visão musical em palcos mundiais e de quem mexe na terra todos os dias. “Niafunké” pode não possuir canções tão melodiosas quanto “Talking Timbuktu”, mas ganha em autenticidade que se traduz não só na forma mais audaciosa de Toure tocar guitarra, como nos músicos que o acompanham. Os calorosos coros femininos, os ritmos turbulentos das calabash, do djembe e das congas a fazer lembrar o lado rítmico de uma Oumou Sangare, o som de transe do njarka (violino de uma corda), conduzem-nos a uma viagem de devoção e embriaguez, transmitindo-nos toda a pureza do Mali profundo, onde os blues nasceram.

Publicado por Luís Rei às julho 2, 2003 05:51 PM

Comentários

Onde estão os Hedningarna, os Dervish, as Varttina, Kepa Junkera, Marta Sebestyén a solo ou com os Muzsikàs, entre muitos outros?
Uma 'discografia essencial' de 21 discos é sempre muito dimunuta.
De qualquer forma realço a 'coragem' e o empenho na elaboração da lista.

Publicado por: Jorge às março 14, 2004 10:45 AM

Também gostava de ter textos sobre esses discos para os incluir neste espaço. Infelizmente o tempo não dá para tudo. Como deves ter reparado, este espaço nunca está concluido. Há sempre qualquer coisa a ser adicionada, quer aqui, quer em outras áreas.

e qualquer forma, poderás procurar na secção listas, uma relação de 100 discos de sempre onde se incluem quase todos esses nomes que referes.

Publicado por: Yggdrasil às março 15, 2004 11:59 AM