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ALI ALI FARKA TOURÉ - "NIAFUNKÉ" »
julho 02, 2003
"BEYOND FADO", UMA REPORTAGEM EM LISBOA (FOLK ROOTS DE JULHO)
Na mesma edição da Folk Roots em que Manecas é o principal protagonista, é ainda apresentada uma reportagem em Lisboa, intitulada “Beyond Fado”. Finalmente, alguém reconhece que a música portuguesa não é só fado (claro que Andrew Cronshaw, jornalista da mesma revista e autor do capítulo referente a Portugal no Rough Guide de World Music há muito que nos tinha mostrado que há “bifes” bem informados), apesar de a incursão por várias casas de fado constituir parte significativa desta reportagem. Mas há também Gaiteiros de Lisboa e um respirar profundo da lusofonia africana na Capital.
O CENÁRIO E OS PROTAGONISTAS. Jon Lusk percorre o B.Leza, Petisqueira de Alcântara, Bacalhau de Molho, Ondeando (na Costa da Caparica) e En’Clave. Esta incursão, acompanhada em parte por Mariza, serviu para recolher impressões de Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa), António Zambujo, Waldemar Bastos, Tabanka Djaz e Bana.
Um reportagem curiosa e abrangente que aborda váriadíssimos assuntos: as diferentes influências que a música portuguesa recebeu, do norte e do sul; o aproveitamento político de Salazar do fado e dos ranchos folclóricos; a diáspora negra da África lusófona em Lisboa, no pós 74; a nova geração que começa a olhar para a tradição com outros olhos (sem contudo mencionar nomes – a grande pecha deste artigo).
A NEGATIVIDADE. Das impressões registadas por Jon Lusk, ressalta uma negatividade bem visível. Rui Vaz, esquecido que ainda há bem pouco tempo encheu a Aula Magna e é sempre bem recebido em festivais nacionais de músicas do mundo, refere que às vezes olham para os Gaiteiros “como se fôssemos estrangeiros”. Já António Zambujo, admite que os portugueses em geral “não se interessam pela sua própria cultura”. Waldemar Bastos além de se queixar de um mau entendimento com a Luaka Bop, e de afirmar que é difícil viver em Portugal (e que só por questões familiar tem reside cá), refere que em “Portugal não existe uma cultura aberta”. Esta olha com desdém para africanos que cantam fado. Apesar disso, Mariza (de raízes moçambicanas), continua a vender que se farta. Os Tabanka Djaz, vão ainda mais longe e falam em “racismo” entre os promotores de espectáculos das Câmaras Municipais, comentando ainda que “os portugueses escutam-nos com uma atitude colonial”. O repórter chegou a confessar-se surpreendido com tanto bota-abaixo.
FALTA DE AUTO-ESTIMA. É de facto muito estranha a nossa baixa auto-estima. A Folk Roots dá tempo de antena à “cidade dos Poetas” (como chega a ser mencionada por jornais ingleses) e os seus representantes gastam mais tempo a desabafar, do que a pronunciarem-se sobre as virtudes dos músicos e da música portuguesa. Talvez esta baixa auto-estima tenha a ver com aquilo que também foi referido no artigo: Cesária Évora, Waldemar Bastos, Tito Paris, Dulce Pontes (e muitos outros nomes) só ganharam algum espaço mediático em Portugal depois de terem conquistado a Europa. Será que esta baixa auto-estima reflecte-se na imprensa nacional, que prefere fazer capas com artistas estrangeiros que, por vezes nem 1000 discos vendem, e ignoram os músicos lusófonos até estes se notabilizarem lá fora?
POSITIVISMO. A única voz que trouxe algum alento ao derrotismo lusitano, foi a de Miguel Santos, da delegação londrina da Fundação Calouste Gulbenkian, que tem feito um notável trabalho de promoção dos artistas nacionais em Inglaterra, nomeadamente através da organização de duas edições do Festival Atlantic Waves. Diz ele que é preciso que apareça “gente que acredite que tenha talento e (...) que não tenha medo de fazer coisas”. Miguel Santos que gosta de se rever “como parte de uma nova geração que acredita que existe em Portugal talento e criatividade, tal como em outro país do mundo”. Assim é que se fala.
PS: A Folk Roots pode ser adquirida em Lisboa na loja do Mundo Da Canção, no Picoas Plaza. Para mais informações, consultem o site desta distribuidora: www.discantus.pt
Publicado por Luís Rei às julho 2, 2003 04:10 AM