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julho 30, 2003
CHICO CÉSAR: UM ‘SANDOKAN’ EM TONDELA

O Familycat foi a Tondela ver o Chico César e saiu de lá encantado. Escreveu um pequena apreciação ao evento e publicou-o no Fórum Sons. Pedi-lhe para ‘postar’ esse testemunho aqui. Ele só podia dizer que sim.
Estive ontem em Tondela no lindíssimo espaço da ACERT onde ele deu um concerto encantador. Apenas ele, três violões, um humor contagiante e conversa delirante com um público primeiro curioso, depois surpreendido e, logo a seguir, completamente rendido.
O concerto recuperou o formato “Voz, Violão e Você” (em detrimento da banda completa, e ainda bem) idêntico ao que se encontra no clássico Aos Vivos. Só deu CHICO: uma figurinha atarracada, com aquele cabelo à Sandokan-depois-de-ter-enfiado-a-cabeça-na-turbina-de-um-Boeing-747, uma túnica negra e vermelha sem mangas, três violões, uma vontade enorme de conversar (fala pelos cotovelos: antes, depois, entre as canções, comenta as letras e os acordes, improvisa…), um rebuliço em palco que quase parece uma figura de desenho animado. One man show como já não se vêem muitos.
Começou, como já é hábito, apenas com a sua voz a interpretar Béradêro e, antes que nos recompuséssemos, já estávamos todos a cantar e dançar Mama Africa e a sussurrar À Primeira Vista. Praticamente, correu quase tudo de Aos Vivos e várias coisas do Cuzcuz Clã e seguintes. No meio de toda a festa, apenas achei que podia ter arriscado mais coisas do último Respeitem Meus Cabelos, Brancos que é, de longe, o melhor álbum de estúdio que ele gravou. Foi pena não ouvirmos Pétala Por Pétala ou Flor do Mandacaru.
Não tivemos a NÉ LADEIRAS mas a galega UXÍA subiu ao palco para um dueto seguida de uma maravilhosa FILIPA PAIS que partiu todos os corações da plateia ao cantar Onde Estará o Meu Amor. O momento mágico da noite.
Pelo meio ainda celebrou ZECA BALEIRO (Pedra de Responsa), JACKSON DO PANDEIRO (Sebastiana) e - depois de dois encores e com o público com muito pouca vontade de o deixar ir embora - CAETANO VELOSO com Irene a encerrar um medley final (eu quero ir minha gente / eu não sou daqui).
Magnífico! Não percam se tiverem a oportunidade de o ver ao vivo. (Familycat)
Publicado por Luís Rei às 10:28 PM
O RETRATO DE MARI BOINE
NO CANAL ARTE (Hoje às 20h40)

Mari Boine é uma das artistas nórdicas que mais respeito. Enquanto criança, combateu a segregação cultural de um sistema de ensino norueguês que inferiorizava os costumes, as tradições e as diversas línguas dos Sami (não devem ser considerados Lapões – Lapp - porque é um termo pejorativo), que foram “empurrados para o tecto do mundo”, passano a habitar o norte da Noruega, da Suécia, da Finlândia e da Rússia. Já em adulta, revoltou-se contra os seus familiares “cristianizados”, por estes se oporem ao simples facto de ela recuperar uma tradição perdida dos Sami - o canto joik -, que os “colonizadores” cristãos consideraram ser uma criação do Inferno. O mesmo fizeram depois com o violino tatuado “harding fele”.
Apesar de profundamente enraizada no joik, a sua música é universal. Possui uma forte componente espiritual xamânica. É riquíssima do ponto de vista rítmico e harmónico. Álbuns extremamente bem gravados e que entram directamente na lista dos cem melhores discos de músicas de raíz, como “Eagle Brother” e “Unfolding”, revelam um espírito e um sentimento Sami, que interiorizou os ritmos e a magia sonora de outros mundos e de outras culturas ancestrais. A todo o seu carisma, junta-se o toque de violino arabizante de Hege Rimestad, o charango e as poderosas flautas andinas do chileno Carlos Quispe, as percussões tribais de Roger Ludvigsen e Gjermund Silset. No final dos anos 90, banda de Mari Boine separou-se da diva. Enquanto parte da sua banda trocou experiências com o quéniano Ayub Ogada (tiveram oportunidade de os ver ao vivo no Multimúsicas em Lisboa – que grande concerto!), Mari Boine ainda participou no projecto Vershi da Koreski do russo Alexei Levin. O ano passado surgiu num formato bem mais electrónico, não só no álbum “Eight Seasons”, como também atráves do álbum de remisturas, que reúne nomes tão ilustres quanto Bill Laswell, Jah Wobble e Nils Peter Molvaer.
O documentário do Arte será novamente emitido, no próximo dia 6 de Agosto, às 0h50.

In the earliest years of our Christian era, wondrous rumours of a wild and barbaric people in the farthest north spread even as far as Rome. So it was that in the year 98 AD Tacitus chronicled what he had heard of them. Far beyond the Germanic tribes lived these fenni. Horses nor houses, they had clad in skins; they did not cultivate the land but ate only what they could find growing wild, and their wild beasts and weather was a pitifully primitive hut made of twigs. They had no iron, and instead, tipped their arrows with bone. Thus armed, they went hunting; and the women hunted with the men and took their share of the kill.
From ‘People of Eight Seasons’ by Ernst Manker
Publicado por Luís Rei às 06:25 PM
FESTIVAL RAÍZES DO ATLÂNTICO: UMA SEREIA EM MAR AGITADO
O Funchal recebeu, durante toda a semana que passou, a quinta edição do Festival Raízes do Atlântico. Como tantos outros, sofre as agruras dos orçamentos municipais ou governamentais disponíveis que, atendendo à conjuntura actual, tendem a ser mais curtos. Quem não tem cão caça com gato. Além de um nome de luxo – Cesária Évora – o evento contou com a participação de um grande contigente madeirense – Encontros da Eira, Pipi Noir e Xarabanda – e de um projecto a capella de Sintra (agradável surpresa estes Officium) que trabalha boa parte do espólio madeirense recolhido pelo projecto de Rui Camacho (Xarabanda).
A excelência da folk europeia

Na última noite, os catalães L’Ham de Foc exibiram todas as credenciais de um projecto a jogar nitidamente na liga dos campeões europeus da folk europeia, em contraste com os escoceses Mac Umba, divertidos mas tecnicamente limitados a militar na 2ª divisão B.
Custa a acreditar que os festivais do continente não tenham “pegado” nestes valencianos. Além de terem dois álbuns tão interessantes quanto complexos (“Cançó de Dona i Home” de 2002, bem melhor que “U” de 1999), a banda também é grande, muito grande, ao vivo. Num festival de entrada gratuita, repleto de espectadores acidentais, foi notório o enorme respeito por quem estava em cima do palco. Coisa que raramente acontece nos festivais de maior dimensão e de bilhetes (bem) pagos. Momentos houve, de pausa, em que se escutou... silêncio. Nem se ouvia tão pouco o vizinho do lado a falar. Nem as crianças a brincar ou a chorar. Nada. Foi bonito de se sentir. Para isso contribuiu o extremo profissionalismo dos músicos e dos técnicos de som e de luzes que conseguiram transformar metal em ouro, graças à simpatia de ambos e de uma notável disciplina em palco a fazer lembrar projectos indianos Ghazal, cujos mestres de cítara indiana acordavam diariamente os protagonistas por volta das três da manhã, para estes praticarem o instrumento.
A receita parece ser simples. À beira do mediterrâneo procura-se um ponto de contacto entre o contemporâneo e o medieval, colocam-se todos os ingredientes provenientes de Creta, do norte de África, da Pérsia, da folk italiana, albanesa e búlgara num único caldeirão. Serve-se tudo em bandeja de prata, num banquete que requer mais talheres do que uma refeição imperial. É impressionante a forma como os vários instrumentos vão desfilando ao longo de uma hora de êxtase. Há cordas para todos os gostos: alaúdes, sanfona, cavaquinho, mandola, cítara, saltério, bouzouki. Há “vientos” (como eles dizem): gaita galega, búlgara, dolçaina, didgeridoo, clarinete e outro tipo de aerofones aparentados com a bombarda bretã e o duduk arménio. Há também muita percussão: darbuca, bendir, pandeireta, menuda, tamborina de cordas e tablas. Excelente os cinco minutos de fama de Diego López, a sós com as tablas. Mas é em Efrén López e Mara Aranda que gira todo o universo dos L’Ham de Foc. Ele é a artéria que bombeia o sangue para toda a criação. Ela, a alma que ilumina esta viagem do fantástico à intemporal pangeia mediterrânica. Quando é que é mesmo o próximo concerto dos L’Ham de Foc?
Samba com whisky
A seguir, os Mac Umba tinham por missão oferecer-nos a boda de um peculiar “casamento” entre as gaitas escocesas das terras altas e a percussão brasileira em andamento de samba. Humanamente são do melhor que há. Tecnicamente, não escondem a limitação harmónica e rítmica. Pobres em cima de um palco, ricos a animar uma festa de rua.
Mais música menos palavra
Na passada quinta-feira, a instituição madeirense Xarabanda, que tem feito um trabalho incansável de recolha e de formação de novos músicos, não gostou da forma como a organização os recebeu. Um dos interlocutores, Rui Camacho, fez estalar o verniz. Queixou-se do som da organização, da falta de apoios monetários para as bandas madeirenses (só faltou chamar-lhes cubanos), a um repórter mais habituado a transcrever declarações dos intervenientes e da assistência, do que propriamente a escrever um parágrafo que seja de análise ao concerto. É verdade que houve problemas de som, mas Rui Camacho terá de olhar primeiro para a forma caótica como é montado um espectáculo dos Xarabanda. Gabo-lhes o mérito de apresentaram uma verdadeira orquestra de cerca de uma dezena de violas de arame e rajões, tocados por alunos da sua associação. Há (novas) vozes femininas apreciáveis, um bom mestre de cerimónias (Roberto Moniz). Mas é intolerável a forma como se perde tempo a entrar e sair do palco em cada canção, quebrando toda a possível dinâmica de um espectáculo pensado para ir crescendo momento a momento. Como é possível não sair de nove ou dez músicos em cima do palco um rasgo mais ousado de criatividade, quebrando a linearidade como denominador comum?
No final, a machadada final na nossa paciência. Com todo o respeito pela Dona Isabel Gonçalves, que é uma das fundadoras dos Xarabanda... mas não deveria esta senhora tocar percussão e cantar apenas fora dos palcos? Assim é difícil que o mar passe a ponta de São Lourenço, como deseja Rui Camacho. Vai continuar a bater e a voltar para trás.
Publicado por Luís Rei às 12:32 AM
julho 23, 2003
GALANDUM GALUNDAINA: "QUE SEIA UN EISITO I 1 PURMEIRO DE MUITOS I BUONOS, CHENOS D'ALMA"
GALANDUM GALUNDAINA
"1 PURMEIRO"
Emiliano Toste / Mundo da Canção
Para o bem e para o mal, as Tierras de Miranda continuam bem longe das principais redes de estradas nacionais e a piscar o olho ao vizinho de Aragão, onde à semelhança desta zona raiana transmontana está enraizada a tradição da fraita (flauta pastoril de três orifícios) e tamboril, tocado em simultâneo. Ir de Lisboa a Miranda do Douro é uma verdadeira aventura de pelo menos seis horas de viagem que, apesar de tudo, vale a pena ser feita. O planalto transmontano é deslumbrante. A riquíssima cultura, apesar vetada ao esquecimento do poder central, tem sido o baluarte da identidade de um povo culturalmente homogéneo, que tem o desplante de falar uma outra língua: o mirandês (até existe blogue sobre o assunto). São os benefícios da interioridade, que têm preservado um filão precioso de gaiteiros, tamborileiros e vozes sexagenárias e septuagenárias, oportunamente registadas em suporte digital pela editora Sons da Terra de Mário Correia. À profusão de antigos mestres de cerimónias, tem-se assistido ao interesse crescente dos jovens músicos pela recuperação das mais enraizadas cultura mirandesa. No epicentro de todo este crescente orgulho regional visível no rosto de uma nova geração de músicos, encontram-se os Galandum Galundaina, secundados por Lenga Lenga e pelo grupo de “rock agrícola com mentalidade de tractor” Pica Tomilho. Músicos de altos estudos e professores de música, os Galandum Galundaina exibem todo o rústico e pastoral de composições cantadas em mirandês e tocadas com gaita de foles transmontana, tamboril, caixa de guerra, conchas de Santiago e castanholas. Em bom tempo perceberam que não iam a lado nenhum com as experiências mais jazzísticas de hotel, de há uns cinco anos atrás. Depois disso, o quarteto recuperou o seu lado genuíno e de excelentes animadores de rua (dois dos seus maiores trunfos), apostando em regar a raiz, tornando-se mais forte e consistente, do que a querer ser a folha de plátano que dura apenas uma Primavera. “1 Purmeiro” demonstra que os Galundum se encontram agora numa encruzilhada. Depois deste álbum, será difícil criar um novo registo sonoro que não soe um pouco como uma sequela. Apesar de tudo, prefiro vê-los e ouvi-los neste registo, de preferência nas arribas do Douro e em cima de um burro.
Nós tenemos muitos nabos
Nós tenemos muitos nabos
a cozer nua panela,
nun tenemos sal nien unto
nien presunto nien bitela
Mirai qu'alforjas, mirai qu'alforjas
uas mais lhargas, outras mais gordas
uas de lhana, outras de stopa
Ls chocalhos rúgen, rúgen
ls carneiros alhá ban
an chegando a Ourriêta Cuba
ls carneiros bulberan.
Mirai qu'alforjas, mirai qu'alforjas
uas mais lhargas, outras mais gordas
uas de lhana, outras de stopa.

Nota: Durante os dias 30 de Julho e 1 de Agosto, no arranque de mais uma edição do Festival Intercéltico de Sendim, terá oportunidade de descobrir as Terras de Miranda por aldeias, caminhos e estradas mouriscas e ouvir os Galandum Galundaina, montado num asininolocal, que acabou de merecer a protecção da Comunidade Europeia (parabéns pelo seu trabalho engenheira zootécnica Luísa Samões). O programa está disponível no sítio dos Galandum Galundaina .
Publicado por Luís Rei às 04:44 AM | Comentários (8)
julho 18, 2003
REPORTAGEM EM LISBOA NA FOLK ROOTS DE JULHO
Há uns dias, neste blogue, fiz o resumo da reportagem que a Folk Roots fez em Lisboa, em casas de fado e de música africana. Com a ajuda do António Rebelo da Janela Indiscreta, disponibilizamos as quatro páginas do artigo. Pode fazer o download do documento pdf, aqui.
Ps: definitivamente, a Folk Roots rendeu-se à lusofonia e à folk oriunda da Península Ibérica. Depois de Mariza e Manecas Costa terem sido capa desta publicação, é agora a vez das galegas Faltriqueira, na edição dupla de Agosto / Setembro (com CD incluído). Grupo que também tem sido extremamente elogiado nos programas de rádio da BBC Radio 3: 'Late Junction' e 'World Routes'.
Publicado por Luís Rei às 02:46 PM
julho 15, 2003
LILA DOWNS: NA LINHA DA MORTE
LILA DOWNS: NA LINHA DA MORTE

Nasceu no outro lado da fronteira. No lado de lá da linha. Lugar que maioria dos mexicanos deseja alcançar. A razão pela qual muitos deles perderam a vida.
Filha de um professor de arte e pintor norte-americano e de uma indígena mexicana de etnia Mixteca, Lila Downs é uma espécie de Manu Chao no feminino. Antes da glória de “Burn It Blue”, tema gravado em dueto com Caetano veloso para a banda sonora do filme “Frida”, editou o álbum “La Linea” (o seu terceiro disco).
Mais um manifesto anti-globalização, “La Linea” põe a nú a política económica global da NAFTA, a imigração precária num mundo de (apenas e só) livre circulação de bens financeiros e as situações desumanas que se vivem em solo mexicano. Aborda as questões da exploração do trabalho feminino nas “maquiladoras”, a falta de direitos civis dos mais de 10 milhões de indígenas que aí vivem, o infortúnio daqueles que pagam com a vida o facto de tentarem passar a fronteira entre o México e os EUA.
Além de um discurso inflamado pela defesa dos pobres e excluídos, Lila Downs exibe uma abrangência sonora notável, centrada sobretudo no universo latino-americano. Sem nunca esquecer as suas raízes índias – ela própria veste-se a rigor e vive numa comunidade mixteca – Lila Downs, ora exibe a sensualidade serena de excelsas vozes hispano-americanas como Susana Baca e Toto La Momposina, ora revela o seu lado negro de tragédia e dramatismo inspirado em Lhasa, ao qual não falta a referência à lenda de “La Llorona”.
Entre arranjos jazz e pop tão sofisticados como aqueles que moldam “Eco de Sombras” de Baca, Lila Downs apresenta várias facetas em “La Linea”. A clássica, rígida e sóbria, centrada na cultura popular mexicana, em cumbias e boleros. E a experimentalista e irreverente, ironizando a má sorte daqueles que tentam passar a linha com rancheras (“El Bracero Fracasado”), decompondo o intervencionismo de Woody Guthrie, revestindo todo o dramatismo das suas palavras com ritmos de hip hop e reggae, dando uma leitura afro-cubana - num jeito semelhante ao dos norte-americanos Pink Martini - a “Perhaps, Perhaps, Perhaps”. Uma obra tão interessante, quanto desequilibrada.
Lila Downs estará em Portugal, no próximo sábado, dia 19 de Julho, para abrir o ciclo “Noites no Palácio” (Jardins do Palácio de Cristal, Porto). A 25 do corrente mês, apresenta-se no festival “Tom de Festa (em Tondela)
Publicado por Luís Rei às 11:30 PM | Comentários (3)
MASTER MUSICIANS OF JAJOUKA: CRISTÃOS,
MASTER MUSICIANS OF JAJOUKA: CRISTÃOS, MUÇULMANOS, BERBERES E HINDUS

O Intervenções Sonoras fez-me ir ouvir novamente os discos dos marroquinos Master Musicians of Jajouka. Não resisti em recuperar uma entrevista com Bachir Attar publicada há cerca de três anos na revista 'On', que era editada com 'O Independente'.
Depois de Brian Jones e Bill Laswell é a vez do indiano Talvin Singh gravar e produzir, provavelmente, o clã musical mais antigo do mundo. Apesar da tecnologia e das tablas empregue pelo anglo-indiano, os Master Musicians of Jajouka mantêm intacta toda a sua aura de misticismo e hipnose de uma música de transe capaz de curar moribundos.
Marrocos tem sido durante este século XX um verdadeiro ponto de passagem e inspiração para artistas das diversas artes. Mark Twain, Jack Kerouac, Paul Bowles, William Borroughs, são alguns dos homens da escrita tocados nas suas obras pelas culturas árabe e berbere à beira Atlântico.
Em 1958, o pintor Brion Gysin descobriu perto de Tanger, os Master Musicians of Jajouka durante as festividades de um dos eventos sagrados destes berberes. O Pan Festival em memória de Bou Jeloud, um Deus animal representado nas cerimónias sagradas através de um figurante metade bode, metade homem (um pouco à selhança do mito grego do Minotauro) que dança freneticamente e cujo ritual anual propicia maior saúde aos aldeões. Gysin captou o espírito e a magia destes músicos de transe que, revezando-se, conseguem tocar interminavelmente durante dias. Uma década depois, Brian Jones dos Rolling Stones aterra nesta aldeia berbere para registar aquele que seria o primeiro disco oriundo de Marrocos editado no mundo ocidental: ?Brian Jones Presents The Pipes of Pan At Jajouka?. Bachid Attar, filho do antigo líder Hadj Abdesalam Attar que herdou a chefia de um clã musical com mais de 600 anos revela que ?ele ouviu cassetes gravadas pelo Brain Gyson e adorou. Disse-lhe que tinha de ir a essa vila e trabalhar na música. Gravou mais de 7 horas da nossa actuação, como se estivéssemos a tocar nas cerimónias da nossa aldeia, foi para Londres onde estava a trabalhar num disco dos Rolling Stones e aí mostrou a nossa música ao resto do grupo. Misturou o álbum e editou-o, em 71, pela editora deles.?
A partir daqui, o universo de Bachid Attar e dos Master Musicians Of Jajouka ampliou-se consideravelmente. Desde ha séculos, ?a nossa música tem sido oferecida como oferenda aos sucessivos reis de Marrocos. Sempre serviu para celebrar actos de extrema importância para o nosso povo como casamentos, nascimentos, circuncisões e tomadas de trono?.
São estes possantes ritmos e harmonias hipnóticas interpretadas através de instrumentos como ghaita (espécie de oboé), percussão, flauta e gimbri (alaúde de três cordas) que conferem aos cerca de 50 músicos que constituem o clã o estatuto de mágicos e curandeiros. É, à semelhança da tradição gnawa dos sufis uma música ?que comunica com os espíritos, de forma a curar e a abençoar pessoas. Quando tocamos sentimos os nossos antepassados o tempo todo, porque esta música de família é um presente que nos foi oferecido por eles.?
Depois de mais de doze anos de estrada pelos quatro cantos do mundo, de outras visitas notáveis a Marrocos efectuadas por Bill Laswell que produziu o segundo disco do grupo ?Apocalypse Across The Sky? e de Bachid Attar ter residido em Nova Iorque, onde gravou com Maceo Parker e tocou, por exemplo, com Lee Ranaldo dos Sonic Youth, é natural que os horizontes deste berbere agora sejam outros: ?ao longo da minha vida, tudo tem influenciado o meu trabalho: a beat generation, o rock?n?roll, o jazz. O Brian Jones foi o primeiro a querer juntar a música de Jajouka à ocidental e de diferentes culturas. Foi o primeiro com a mente aberta para a música marroquina. Através dele, conheci e toquei com muita gente do rock e do jazz, como o Ornette Coleman, os Rolling Stones no álbum ?Steel Wheels?. Também conheci os Aerosmith, os Guns N?Roses. Estive no Woodstock de 94 e toquei lá com o Santana.?
É por isso normal que Talvin Singh, mestre anglo-indiado do ?tabla?n?bass?, tenha em Março do ano passado subido as montanhas Rif para captar, uma vez mais, toda a aura de misticismo que envolve uma sonoridade, segundo Bachid, que não se cansa de pegar nas palavras de Burroughs, ?soa a uma banda de rock?n?roll com 4000 anos de existência?.
Talvin Singh, considerado por Bachid Attar ?uma benção divina? integrou-se no clã e conduziu o processo sem restrições". É que ?existe uma ligação histórica entre minha família que tem raízes indianas de há centenas de anos e Talvin Singh. É por isso que neste disco tocamos a música dos Jajouka com tablas. Houve uma ligação forte entre nós. É difícil encontrar alguém que perceba aquilo que fazemos. O Talvin trouxe o estúdio para a nossa aldeia e gravou a nossa música, tocou percussão, levou os registos para Londres e convidou-me a ir com ele, de forma a trabalharmos em estúdio. Neste álbum apenas três canções foram registadas integralmente na nossa aldeia, sem qualquer tratamento posterior, o resto do disco foi todo trabalhado no estúdio em Londres.?
Após esta experiência com Singh e logo a seguir a uma digressão de apresentação ao vivo do disco que passará pela Europa, América e Australia, Bachid Attar planeia gravar um disco a solo. Conforme confessa, ?pretendo unir a minha cultura com influências indianas, americanas, europeias e africanas. Preciso de tempo para isso e para tentar contactar Keith Richard, David Gilmour e outros músicos indianos de cítara.
Não há nada em concreto, são apenas ideias.?
Publicado por Luís Rei às 12:08 PM | Comentários (2)
julho 08, 2003
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (10)
MIRIAM MAKEBA - "GUINEA YEARS"
Miriam Makeba
Guinea Years
Sterns / Mundo da Canção

Aos 72 anos, pode dizer-se que Miriam Makeba já viveu – como os gatos – 7 vidas, no mínimo. Resistiu a tudo. A 4 (quatro!) divórcios. À morte da sua filha. A acidentes de viação e aviação. À perseguição dos Afrikaans e do FBI, devido à sua luta pelos direitos civis dos negros. A 30 anos de permanente exílio. Ao “apartheid” e às contra-ofensivas governamentais norte-americanas dirigidas ao “black power”. Makeba não esmoreceu, antes pelo contrário. Foi a porta-voz do presidente guineense (de Conacri) Sékou Touré em Nova Iorque e embaixatriz africana da ONU, trabalhando de perto com a FAO (Food and Agriculture Organisation), no sentido de fazer lobbying pela diminuição da fome no mundo. Aquela que o governo sul-africano apelidava de subversiva, mesmo que cantasse canções de amor, conquistou o prémio de paz Dag Hammarskjold (antigo secretário geral das Nações Unidas) de 86.
À parte da carreira político-social, na música, Makeba coleccionou recordes. Não pelos mais de 40 discos que gravou, mas por ter sido a primeira artista africana a conquistar um grammy em 65, com “An Evening With Harry Belafonte”; e a atingir o top ten de singles norte-americano em 67, com “Pata Pata”.
“The Guinea Years” é uma antologia que retrata o tempo em que Makeba viveu exilada na Guiné-conacri, entre as décadas de 70 e 80. Depois de ter enfrentado problemas com a justiça norte-americana, devido ao matrimónio que havia contraído (em 68) com o líder radical dos Panteras Negras, Stokely Carmichael. Um disco que mostra acima de tudo a grande veia soul-jazz, a expressividade vocal de uma artista que cresceu a ouvir Duke Ellington, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, e a extrema habilidade para cantar em nove línguas (francês, inglês, arábico, xhosa, kikongo, maninka, fula, nyanja e shona). Em suma, a excelente Miriam Makeba que ainda nos brindava com o seu melhor. Ainda não tinha descambado para a afro-pop fácil e plástica de “Homeland” (2000). Hipnótico. Belo. Indispensável.
Publicado por Luís Rei às 12:53 PM
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (9)
LÚNASA - "MERRY SISTERS OF FATE"
Lunasa
Merry Sisters of Fate
(Resistencia / Sabotage)

Por mais que se tente revolucionar a música tradicional de raiz celta, fundindo-a com sonoridades de outras etnias, com o rock, ou com a electrónica, o melhor é deixar tudo como está, que está bem. Projectos como o dos Kíla, Peatbog Fearies, Búrach, Shooglenifty, Afro Celt Sound System, Cappercaillie e de Eliza Carthy na sua veia pop, nunca merecerão outro estatuto que não o epíteto entre razoável e com algum interesse. Enquanto algumas das propostas mais interessantes do território escandinavo apresentam-se sob o domínio da miscigenação entre a raiz e a novidade de sujeito indefinido, a renovação musical bem sucedida na Irlanda tem origem na pura e dura tradição.
Não alterando um milímetro àquilo que já tinham apresentado em 98, no álbum de estreia homónimo (e que era sublime), os Lúnasa assumem-se como os filhos pródigos da memorável Bothy Band de Donal Lunny e de Matt Molloy. Sem alterar a estrutura, o quinteto injecta sangue puro e irreverente nas veias de uma velha senhora que continua jovem, emotiva, capaz de correr de forma perfeita a várias velocidades, sem nunca perder o ritmo. Os Lúnasa escrevem assim a mesma história de uma forma pessoal e actual. O contrabaixo do ex-Waterboys, Trevor Hutchinson, é um dos principais protagonistas de uma secção rítmica reformada, isenta do (quase) incontornável Bodhran, e excelentemente bem complementada pelo guitarrista Donogh Hennessy. Ambos criam as fundações ideais para que as flautas e gaitas irlandesas de Kevin Krawford e Cillian Vallely em mútuo entendimento com o violino de Seán Smyth, edifiquem as paredes e o telhado de uma casa irlandesa, concerteza, de novos traços arquitectónicos, decorada aqui e ali por um clarinete ou uma “lap steel guitar”, mas que se confunde com a típica paisagem rural.
Publicado por Luís Rei às 12:47 PM
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (8)
ORLANDO CACHAITO LOPEZ - "CACHAITO"
Orlando Cachaito Lopez
Cachaito
World Circuit / Megamúsica

Buena Vista Social Club foi a engrenagem que furou o bloqueio cultural a Cuba, resgatando inúmeros músicos talentosos da geração de ouro (anos50) que, antes da revolução de Fidel e Guevara e da caça às bruxas de Kissinger, brilharam em palcos de todo o mundo. Este projecto-álbum, foi a chave mestra que abriu os ouvidos do mundo à música cubana e deu também uma nova projecção internacional a músicos de idade avançada que já tinham há muito arrumado os seus instrumentos no sótão. Casos de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Ruben Gonzalez e Omara Portuondo.
Se estas figuras de primeiro plano tem interpretado a solo o politicamente correcto da música cubana, o homem-ritmo, Orlando ‘Cachaito’ Lopez, responsável pelo contra-baixo das sessões Buena Vista, subverte todas as regras que, todos os outros elementos da sociedade Buena Vista, respeitam religiosamente.
Orlando ‘Cachaito’ Lopez, de 70 anos, é membro de uma família de 16 contrabaixistas, havendo quem diga são bem mais numerosos - cerca de 100. É o filho de Orestes Lopez e sobrinho de Israel ‘Cachao’ Lopez. Ambos estiveram na vanguarda das revoluções musicais cubanas, entre os anos 30 e 50, ao criarem o ritmo mambo e ao desenvolverem a música improvisada (descarga).
“Cachaito”, é um álbum onde as raízes encontram-se bem debaixo de solo cubano, mas as folhas andam ao sabor de outros ventos. Há em ‘Cachaito’ (o artista) o deslumbramento por Mingus e Coltrane que se reflecte nas constantes descargas ao longo do disco. O improviso empreendedor de uma nova linguagem, reveste-se de jazz latino, de uma fervorosa secção de percussões (congas, timbales, bongos) e até de dub e hip hop, sem nunca perder o Norte. Além da forte carga jazzística onde brilha o trompete do sul-africano Hugh Masekela, “Cachaito” (o álbum) é perfumado pelo órgão hammond do jamaicano Bigga Morrison em contemplação saudosista da sonoridade típica de Jackie Mitto (“Tumbanga”), e pelos beats manipulados no gira-discos do DJ francês DeeNasty (“Cachaito en Laboratory”).
Orlando ‘Cachaito’ Lopez criou um livro de estilo a seguir pela nova geração de músicos cubanos que olha além mar das Caraíbas.
Publicado por Luís Rei às 04:43 AM | Comentários (1)
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (7)
SUSANA BACA - "ECO DE SOMBRAS"
Susana Baca
Eco de Sombras
(Luaka Bop / EMI)

Quem teve a oportunidade de assistir à actuação de Susana Baca no festival Cantigas do Maio, há uns anos atrás, verificou que a sua música pode ser comparada a um prato de alta cozinha francesa. A voz de Baca reúne todos os ingredientes que lhe conferem o título de diva afro-peruana: simpática por natureza, proporciona-nos estados de espírito antagónicos, ora de uma fragilidade radiante de criança, ora de profundidade e sentimento trágico, cuja aura sombria se encontra embebida no fado e no tango, tornando-a para muitos numa espécie de Cesária Évora das Américas.
Bastaria a Susana Baca uma simples guitarra para nos fazer render à forma como interpreta a sua poesia. Mas a sua música tem muito mais que a já por si só sedutora voz. É feita de uma complexidade acústica notável, vivendo muito de preciosidades rítmicas, marcadas por instrumentos como o cajón, quijada, yembe, que os escravos negros reconstruíram, quando chegaram ao Perú. A prestação do colectivo sul americano já é, por si só, sublime. E que dizer agora do confronto que Susana Baca e a sua banda teve, neste disco, com outros músicos de estúdio, de quadrantes que vão do jazz e da pop à música improvisada?
“Eco de Sombras” resulta num trabalho de grande sensibilidade artística, não só porque a base é consistente e dela emana o peso e a alma da música dos escravos peruanos que Baca recuperou, através das extensivas recolhas que efectuou, como também o recheio – vulgo arranjos “ocidentais” – intensificam o ambiente que se vive em “Eco de Sombras”. É a cereja em cima do bolo que não peca por excesso (facto comum nas fusões que hoje em dia se fazem). A guitarra de Marc Ribot é mágica, feita de pequenos pormenores que imprimem maior amplitude ao refinamento sonoro do disco, comparável àquilo que Ry Cooder fez em Buena Vista Social Club. John Medeski (piano e órgão), Cyro Baptista (percussões), Greg Cohen (contra-baixo) e Rob Burger (acordeão e órgão), que absorveram a música de Baca, contribuem também para uma obra que roça a perfeição.
Publicado por Luís Rei às 04:38 AM
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (6) JUNE TABOR - "ALEYN"
June Tabor
Aleyn
Topic / Megamúsica

"Aleyn" continua na linha a que esta senhora nos habituou. Pleno de charme, beleza e sensibilidade à flor da pele, "Aleyn" é um álbum soturno, carregado de uma densa nuvem negra, que percorre diferentes ambientes que se relacionam como um puzzle.
São histórias de amores infelizes, de solidão, de abandono e de sangue, muito bem contadas pela maturidade e profundidade de June Tabor. O jogo da voz sôfrega com as pausas e os silêncios, por forma a dar mais autenticidade ao seu quadro sombrio, é perfeito. E aqui a novidade é o facto de June Tabor se aventurar por terras klezmer com a interpretação de "di nakht". Trata-se de um tema escrito em Nova Iorque em 1929 por dois emigrantes judeus e que reflecte o isolamento e o desespero daqueles que se fixaram nos Estados Unidos.
O suporte instrumental, como tem sido hábito neste "colar de pérolas", assenta que nem uma luva na palavras e pausas de June Tabor. Exploram-se, através do piano de Huw Warren, momentos siderais de profunda calma. O clarinete e sax de Mark Lockeheart e o contrabaixo de Dudley Phillips dão uma vertente mais jazzística associada à cortina de fumo própria de cabarets. É preciso não esquecer o exímio trabalho de Andy Cutting em acordeão diatónico, que ora salta para a frente da "orquestra" para dar o devido andamento, ora está lá atrás a dar pequenos retoques de maior preciosismo e naturalidade ao aspecto sombrio desta verdadeira obra-prima.
Publicado por Luís Rei às 04:27 AM
julho 03, 2003
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (5) GJALLARHORN - "CALL OF THE SEA WITCH"
Gjallarhorn
Call of the Sea Witch
Finland Innovator / Warner

Com sede em Vaasa, os Gjallarhorn fazem parte dos seis por cento de fino-suecos a viver na Finlândia, mas cuja língua nativa é o sueco. Daí que a música que este grupo pratica, denuncie bem as marcas que este povo deixou aquando da sua ocupação. Apenas uma das baladas é de raíz fino-úgrica que reporta aos tempos medievais do Kalevala. Todas as outras são cantadas em sueco, e também em norueguês. Enquanto grupos como Värttinä e Hedningarna parecem agora sofrer do síndroma "já-fizemos-o-álbum-da-nossa-vida-e-agora?", os Gjallarhorn, sem uma pesada cruz como “Oi Dai” ou “Kaksi” para carregar, apresentam-se como uma fresquíssima revelação da folk destas gélidas paragens, sem necessitar de recorrer às novas tecnologias. Desprovidos de pretensões em atingir uma plenitude criativa e subversiva de um Kaksi, os Gjallarhorn arquitectam um disco totalmente acústico, mas não menos inovador, que possui uma capacidade ímpar de nos surpreender. Ateus como os Hedningarna, vão buscar a essência da sua música às raízes da terra e ao mar profundo da Yggdrasil (árvore de sabedoria) Viking. Eles, que estão, na costa Finlandesa, a dialogar com a outra costa Sueca através do golfo da Ostrobótnia. Daí que, ao longo de Ranarop - Call of The Sea Witch, não nos seja de todo estranha a presença de temas e ambientes marinhos. Um disco praticamente voltado para o mar, erigido na cidade marítima de Vaasa, onde nos encontramos (de barco) a três horas da Suécia. Veja-se o título do disco que é dedicado a Ran, a deusa dos oceanos na mitologia nórdica e protectora deste trabalho, ou "Herr Olof", uma balada sobre um Rei que se apaixona por uma sereia, musa que o convida a descer ao fundo do mar para visitar o seu condado, sem esquecer Sjöjungfrun och Konungadottern/The Mermaid and the Princess que aborda a mesma temática. Aqui, Jenny Wilhelms (a voz e um dos violinos) tem o dom de nos hipnotizar com o seu sumptuoso e cândido canto, próprio de uma menina de 23 anos, qual sereiazinha de Hans Christian Andersen, acompanhada pela melodia compassada das marés que se confundem na suavidade da harpa e na gravidade do didgeridoo de Jakob Frankenhaeuser (que aprendeu a tocar o fálico instrumento na Austrália).
Publicado por Luís Rei às 05:48 PM
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (4) TOUMANI DIABATÉ WITH BALLAKÉ SISSOKO
"NEW ANCIENT STRINGS"
Toumani Diabaté with Ballaké Sissoko
New Ancient Strings
Ryko Disc

Toumani Diabaté é um músico africano experimentado. Ao longo dos quatro anteriores trabalhos, fundiu as suas raízes ao flamengo dos Ketama, ao jazz e à folk britânica de um Danny Thompson, na série "Shongai".
Pegando em instrumentos tradicionais africanos como Kora (o pai da Harpa) e Ngoni (o pai da Guitarra) estes dois virtuosos instrumentistas oriundos do Mali edificam um álbum de rara beleza. Leve como um pluma, repleto de pequenos pormenores como se de uma peça de cristal Vista Alegre se tratasse, "New Ancient Strings" prova que a cultura Griot e a música do Império Mandinka que remonta ao Sec. XIII consegue, seiscentos anos depois, ecoar modernidade sem necessitar de recorrer a elementos externos. Duas mãos e dois instrumentos são o necessário para nos devolver à mãe de todas as civilizações.
Publicado por Luís Rei às 05:30 PM
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (3)
ERNEST RANGLIN - "IN SEARCH OF LOST RIDDIM"
Ernest Ranglin
In Search of Lost Riddim
Palm Pictures

Ernest Ranglin é um músico que pronuncia a máxima do vinho do Porto. Pode dizer-se que aos 70 anos este jamaicano já experimentou de tudo, possuindo uma linguagem musical extensa que passa pelo calypso, ska, rock, reggae, blues, jazz ou son cubano. Talvez por isso tenha sabido adaptar-se à constante evolução da música da sua ilha natal, trabalhando com o produtor Lee Scracth Perry, ou sendo convidado por Bob Marley para seu director musical e professor. "In Search of Lost Riddim" é a concretização de um antigo sonho de regressar às origens. O disco surge como um diário de viagem pelo Senegal, onde Ranglin teve a oportunidade de contactar com músicos de primeira água. Casos de Baaba Maal e Mansour Seck. A intenção é oferecer-nos toda a pureza e riqueza dos ritmos e dos variadíssimos instrumentos acústicos (kora, djembe, ngoli, balafon, etc) que dialogam com a guitarra de Ranglin que parece voar nas suas mãos. Em "Search of Lost Riddim", Ernest Ranglin tem a virtude de fazer com que a música Senegalesa reequacione a sua forma de se adaptar ao progresso e à miscigenação ocidental, sem necessitar de perder autenticidade, como tem sido apanágio de alguns produtores franceses. Facto visível nos últimos trabalhos de Baaba Maal.
Publicado por Luís Rei às 04:58 PM
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (2)
KROKE - LIVE AT THE PIT
Kroke
Live at the Pit
Oriente / Megamúsica

Quem já teve a oportunidade de ver os Kroke ao vivo, dificilmente os esquecerá. Podem não ser judeus, mas todo o sentimento que a diáspora de leste introduziu na música klezmer está bem presente. Só é preciso um contra-baixo, violino e acordeão para que tal réplica seja perfeita e reinvente tal conceito. Kroke é a palavra que se encontra no dicionário de yiddish cujo significado é Cracóvia. A cidade natal deste trio foi até 1939 um dos grandes centros culturais europeus da cultura judaica.
"Live At The Pit" apesar de ser um álbum ao vivo, reproduz apenas o som de palco, facto por si merecedor de nota máxima. Isto é, vinte valores no exame do professor Marcelo. Mas um espectáculo dos Kroke é muito mais que isso. Vive de uma forte presença dos músicos que se vestem tal e qual como os judeus mais ortodoxos, aliado a um virtuosismo e entrosamento notável, que convida a ir para fora, dentro da música klezmer. O sentimento é judaico, a energia, essa, parece ter sido roubada aos ciganos dos Balcãs, o dedilhar dos instrumentos denuncia a formação clássica e a grande rodagem de um grupo que toca em média mais de 250 vezes por ano. Ao longo da actuação de "Live At The Pit" somos ludibriados pelo inesperado. A facilidade com que a sexta velocidade sucede à primeira em "The Night In The Garden Of Eden", a descoordenação ordenada de "Sher" em que os músicos tocam em tempos diferentes em forma de gozo, são bem exemplo disso.
Publicado por Luís Rei às 04:53 PM
julho 02, 2003
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (1)
ALI ALI FARKA TOURÉ - "NIAFUNKÉ"
Ali farka Touré
Niafunké
World Circuit / Megamúsica

Antes da explosão cubana, através do projecto Buena Vista Social Club, Ry Cooder já tinha gravado “Talking Timbuktu” com Ali Farka Touré. Um álbum de grande cumplicidade que viria a conquistar um grammy. Se em termos artísticos, “Talking Timbuktu” representou a afirmação definitiva de um blues men do Mali que, a partir daí, intensificou os seus espectáculos pelos quatro cantos do mundo, em termos pessoais acabou por provocar uma certa negação da proeminente carreira artística, em detrimento de valores mais elevados. Longe de morrer de amores pelo mundo do espectáculo, muitas foram as vezes que Touré pensou em abandonar a vida de músico. Sentimento que se reflecte nas (últimas) raríssimas aparições ao vivo, fora do seu ambiente natural: a aldeia de Niafunké, situada na ponta do deserto do Sara e ao redor do Rio Níger, onde não existe electricidade nem água canalizada. Aí, Ali Farka Touré, pai de 11 filhos com 60 e muitos anos de idade, tem colocado o cultivo da terra acima da música, investindo todo o dinheiro que conquistou com esta actividade (para ele) secundária em máquinas agrícolas. Para quem sentia um certo desconforto em andar em sucessivas digressões mundiais por perder a essência da raiz, seria inevitável a gravação de Niafunké no «lugar de origem desta música - o Mali profundo», registado por um estúdio móvel que se alimentou de um gerador.
”Niafunké” é, provavelmente, o grande álbum da vida de Ali Farka Touré e um sério candidado a melhor álbum world da década de 90. Se em “Talking Timbuktu” a produção de Ry Cooder tinha criado uma maior amplitude sonora que ajudou à construção de grandes canções mais adocicadas ao ouvido ocidental, em “Niafunké” assiste-se ao regresso à terra e à sonoridade (mais trabalhada é certo) que primeiras gravações que “Radio Mali” (de 96) documentam. Um retorno de quem amadureceu a visão musical em palcos mundiais e de quem mexe na terra todos os dias. “Niafunké” pode não possuir canções tão melodiosas quanto “Talking Timbuktu”, mas ganha em autenticidade que se traduz não só na forma mais audaciosa de Toure tocar guitarra, como nos músicos que o acompanham. Os calorosos coros femininos, os ritmos turbulentos das calabash, do djembe e das congas a fazer lembrar o lado rítmico de uma Oumou Sangare, o som de transe do njarka (violino de uma corda), conduzem-nos a uma viagem de devoção e embriaguez, transmitindo-nos toda a pureza do Mali profundo, onde os blues nasceram.
Publicado por Luís Rei às 05:51 PM | Comentários (2)
"BEYOND FADO", UMA REPORTAGEM EM LISBOA (FOLK ROOTS DE JULHO)
Na mesma edição da Folk Roots em que Manecas é o principal protagonista, é ainda apresentada uma reportagem em Lisboa, intitulada “Beyond Fado”. Finalmente, alguém reconhece que a música portuguesa não é só fado (claro que Andrew Cronshaw, jornalista da mesma revista e autor do capítulo referente a Portugal no Rough Guide de World Music há muito que nos tinha mostrado que há “bifes” bem informados), apesar de a incursão por várias casas de fado constituir parte significativa desta reportagem. Mas há também Gaiteiros de Lisboa e um respirar profundo da lusofonia africana na Capital.
O CENÁRIO E OS PROTAGONISTAS. Jon Lusk percorre o B.Leza, Petisqueira de Alcântara, Bacalhau de Molho, Ondeando (na Costa da Caparica) e En’Clave. Esta incursão, acompanhada em parte por Mariza, serviu para recolher impressões de Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa), António Zambujo, Waldemar Bastos, Tabanka Djaz e Bana.
Um reportagem curiosa e abrangente que aborda váriadíssimos assuntos: as diferentes influências que a música portuguesa recebeu, do norte e do sul; o aproveitamento político de Salazar do fado e dos ranchos folclóricos; a diáspora negra da África lusófona em Lisboa, no pós 74; a nova geração que começa a olhar para a tradição com outros olhos (sem contudo mencionar nomes – a grande pecha deste artigo).
A NEGATIVIDADE. Das impressões registadas por Jon Lusk, ressalta uma negatividade bem visível. Rui Vaz, esquecido que ainda há bem pouco tempo encheu a Aula Magna e é sempre bem recebido em festivais nacionais de músicas do mundo, refere que às vezes olham para os Gaiteiros “como se fôssemos estrangeiros”. Já António Zambujo, admite que os portugueses em geral “não se interessam pela sua própria cultura”. Waldemar Bastos além de se queixar de um mau entendimento com a Luaka Bop, e de afirmar que é difícil viver em Portugal (e que só por questões familiar tem reside cá), refere que em “Portugal não existe uma cultura aberta”. Esta olha com desdém para africanos que cantam fado. Apesar disso, Mariza (de raízes moçambicanas), continua a vender que se farta. Os Tabanka Djaz, vão ainda mais longe e falam em “racismo” entre os promotores de espectáculos das Câmaras Municipais, comentando ainda que “os portugueses escutam-nos com uma atitude colonial”. O repórter chegou a confessar-se surpreendido com tanto bota-abaixo.
FALTA DE AUTO-ESTIMA. É de facto muito estranha a nossa baixa auto-estima. A Folk Roots dá tempo de antena à “cidade dos Poetas” (como chega a ser mencionada por jornais ingleses) e os seus representantes gastam mais tempo a desabafar, do que a pronunciarem-se sobre as virtudes dos músicos e da música portuguesa. Talvez esta baixa auto-estima tenha a ver com aquilo que também foi referido no artigo: Cesária Évora, Waldemar Bastos, Tito Paris, Dulce Pontes (e muitos outros nomes) só ganharam algum espaço mediático em Portugal depois de terem conquistado a Europa. Será que esta baixa auto-estima reflecte-se na imprensa nacional, que prefere fazer capas com artistas estrangeiros que, por vezes nem 1000 discos vendem, e ignoram os músicos lusófonos até estes se notabilizarem lá fora?
POSITIVISMO. A única voz que trouxe algum alento ao derrotismo lusitano, foi a de Miguel Santos, da delegação londrina da Fundação Calouste Gulbenkian, que tem feito um notável trabalho de promoção dos artistas nacionais em Inglaterra, nomeadamente através da organização de duas edições do Festival Atlantic Waves. Diz ele que é preciso que apareça “gente que acredite que tenha talento e (...) que não tenha medo de fazer coisas”. Miguel Santos que gosta de se rever “como parte de uma nova geração que acredita que existe em Portugal talento e criatividade, tal como em outro país do mundo”. Assim é que se fala.
PS: A Folk Roots pode ser adquirida em Lisboa na loja do Mundo Da Canção, no Picoas Plaza. Para mais informações, consultem o site desta distribuidora: www.discantus.pt
Publicado por Luís Rei às 04:10 AM
julho 01, 2003
MANECAS COSTA CAPA DA
MANECAS COSTA CAPA DA FOLK ROOTS DE JULHO
Eu tinha avisado há uns dias. O álbum de Manecas Costa, “Paraíso di Gumbe” , está excelente e é um futuro candidato a figurar quer na nomeações para prémios da BBC Radio 3, quer nos 20 melhores álbuns de 2003, quer nas listas da revista Folk Roots. E não é que a edição de julho da “bíblia da Folk Britânica” traz na capa, exactamente, Manecas Costa? Uma reportagem excelente na Guiné Bissau, local onde o disco foi gravado e que sucede aquela que Lucy Duran editou na BBC Radio 3.
Daqui a uns meses, alguma editora multinacional lembra-se de distribuir em Portugal o disco. Depois é ver a catadupa de entrevistas, na mesma semana, a serem publicadas em todos os títulos de imprensa. Como se isso não bastasse ainda vamos vê-lo a “papar” todas as “Praças da Alegria” e os mil e um programas da RTP do Isidro, Serenella e companhia. Eu Avisei.
Publicado por Luís Rei às 05:48 PM