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abril 16, 2003
NUSRAT FATEH ALI KHAN: Ecos do paraíso
Nusrat Fateh Ali Khan
Final Studio Recordings
American Recordings / Sony Músic
Vários Artistas
Hommage a NFAK
World Network / Megamúsica
Em Pleno dia Mundial da Voz, vale a pena recuperar uma das melhores vozes de sempre: a do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e o seu último disco de estúdio. Aproveito para recuperar dois textos escritos há já algum tempo. O primeiro para o sítio já extinto Músicnet e o segundo o antigo suplemento "Vidas" do semanário "O Independente"
Nusrat Fateh Ali Khan, durante a sua vida, contraiu bastantes inimigos no Paquistão por ter subvertido as rígidas regras da música qawwali de devoção a Deus, que os místicos islâmicos Sufis interpretam. As experiências que fez entre a rigidez da tradição qawwali e diversas áreas do mundo ocidental (rock, dança, experimentalismo) com gente tão ilustre quanto Michael Brook, Eddie Vedder e Massive Attack, entre outros, transformou-o num Judas aos olhos do universo islâmico. Este pioneirismo, apesar de contestado por muitos, serviu de motor de arranque para outros mestres do qawwali fazerem também eles outras experiências na área da pop dançável, casos de Shabaz e e dos sobrinhos de Nusrat, Rizwan-Muazzan Qawwali.
“The Final Studio Recordings” é, como o próprio nome indica, a última gravação em estúdio de NFAK, que ficou incompleta devido à trágica morte do cantor paquistanês provocado por ataque cardíaco em 1997. Produzido por Rick Rubin, com créditos firmados na área do rock e mais recentemente country, “The Final Studio Recordings” é uma surpreendente inversão de trajecto artístico de NFAK. Um regresso às origens e à música de amor e louvor ao profeta Maomé no formato mais puro – vozes, harmonium e tablas – isento de malabarismos de estúdio, próximo de registos como “Shahen-Shah” (1989). NFAK em fase terminal de vida e com a voz um pouco mais rouca, consegue manter a toda a potência e requebros hipnóticos do seu canto que, durante a sua vida terrena, nunca foi deste mundo. NFAK, enquanto foi vivo, afirmou que uma boa festa qawwali terá necessariamente de lançar um feitiço sobre a audiência, apesar de esta não compreender a língua. Em mais de duas horas de verdadeiro transe distribuídas por um CD duplo, o mestre cumpre a sua função: a de ser reduzir a distância entre o criador e a sua audiência, seja qual for o credo desta.
Nusrat Fateh Ali Khan a quem o coração atraiçoou no passado dia 16 de Agosto de 1997, morreu feliz. Com o sentimento de ter cumprido a sua missão na terra.
Nusrat, como Sufi que era, procurava na música e nos poemas da sua tradição espiritual levar a palavra de Alá aos quarto cantos do mundo.
Na compilação "Sufi Soul" (Network 97) pode ler-se as seguintes palavras de NFAK: "Quero transmitir a mensagem de paz e amor ao mundo e trazer a palavra de Deus bem próximo do povo. Para nós, a música dos Sufis é como uma ponte que une vários povos. Convida todos a darem as suas mãos. É o caminho da reconciliação."
De facto, se olharmos para a notável carreira de NFAK, chegamos à conclusão que este "quarto tenor" espalhou pelo mundo as mensagens do Islão e do Sufismo, impregnadas de amor e devoção, afecto e tranquilidade. Algumas das matérias base dos poemas que interpreta, muitos deles escritos há mais de 500 anos.
Venerado como um semi Deus no Paquistão, NFAK cedo foi descoberto no Ocidente por Peter Gabriel. O seu nome é sinónimo de metáforas que demonstram ligações indissociáveis entre Ocidente e Oriente, tradição e modernidade, sagrado e profano, por culpa das suas múltiplas experiências com músicos de áreas tão diversas como o rock, o trip hop, a dança e o experimentalismo.
Os seus trabalhos com Michael Brook, Massive Attack, Eddie Vedder, Bally Sagoo e Peter Gabriel, apesar de levarem as mensagens dos Sufis para fora do seu ambiente, foram responsáveis pelo surgir de inimigos no seio da comunidade de músicos qawwali (música de devoção dos Sufis), que sentiram a sua cultura contaminada.
A sua exemplar técnica vocal, plena de improviso em múltiplas inflexões, foi provavelmente melhor compreendida no Ocidente. Entre os inúmeros fãs de NFAK, Jeff Buckey foi aquele que melhor descreveu e interiorizou o sentimento de escutar um disco daquele que é considerado por muitos o Pavarotti asiático. Vale a pena ler as palavras de Jeff publicadas na compilação de NFAK "The Supreme Collection Vol 1", editada pela label americana Caroline Records dez dias depois da morte deste carismático paquistanês. Disco que viria a ser dedicado à memória de Jeff Buckey que morreu afogado, a 29 de Maio de 97, cerca de três meses antes do coração de NFAK ter batido pela última vez.
Jeff contava-nos que "a primeira vez que ouvi Nusrat Fateh Ali Khan estava em Harlem, em 1990. Eu e o meu companheiro de quarto ouvíamos música em volume muito alto. Nessa altura andávamos imersos no toque da maré ondulante dos ritmos sombrios de tablas do Punjab, espicaçados pelo sincronizado bater de palmas que irrompia de cima e de baixo num ritmo rígido e perfeito. (…) De repente escutámos uma, depois dez vozes pairando no ar como se tratasse de um bando de gansos ascendendo ao céu em formação. Finalmente a voz de NFAK. Parte Buda, parte demónio, parte anjo louco… a sua voz era suave e escaldante, simplesmente incomparável.

A mistura do improviso na arte clássica do 'qawwali', combinado com o seu estilo audacioso e a sua sensibilidade, transporta-o para uma categoria só sua, acima de todos os outros que se movem na sua área… Para os verdadeiros qawwalis todos os significados na música existem simultaneamente e não há necessidade de um dogma religioso. Há apenas a peregrinação em direcção à luz que procuramos no fundo do coração, que é a casa de Deus. Existe apenas a pura devoção e um feroz virtuosismo para ganhar asas e planar através da música. De dar um beijo nos olhos de Alá e cantar o seu olhar de amor pelos homens."
Apesar de ter NFAK como pano de fundo, esta "Hommage à Nusrat Fateh Ali Khan" é uma compilação que abre com um tema do antigo mestre do qawwali e depois vagueia algures entre a Síria, o Azerbeijão, Uzebequistão, Irão, Senegal, Índia, Paquistão e Punbjab, através de músicos associados à tradição Sufi. Esta poderia ser uma espécie de segundo volume da colecção "Sufi Soul". Mas não é. A diferença está em que todos os grupos, apesar de não efectuarem quaisquer "covers" de NFAK, escolheram poemas apropriados à memória do paquistanês e musicaram-nos. Ao longo dos dois discos ouvem-se mensagens místicas como "hoje é o dia em que a minha alma parte do meu corpo", "o meu amado regressou a casa", "a vida não é a mesma sem ti", ou mais realistas como: "sei que nada regressa".
Tal como em "Sufi Soul", esta é uma oportunidade para tomarmos um primeiro contacto com alguns nomes que merecem alguma atenção por parte de quem tem o ouvido mais exercitado para tais devoções sonoras. Caso de Munadjat Yulchieva, uma blues woman do Uzebequistão, dona de uma profunda e intensa voz. Atributos que contrariam a tese de NFAK, quando afirmava que as mulheres não têm resistência para cantar qawwali. Outras descobertas felizes prendem-se com a calorosa voz do iraniano Sharam Nazeri, ou a curiosidade de escutarmos o senegalês Cheik Lô em andamento bem diferente do seu disco de estreia "Né La Thiass". Ele que faz parte do movimento Sufi senegalês Baye Fall.
"Hommage à NFAK" é uma compilação no estilo mais puro e duro da tradição Sufi. Bem longe do conceito de "Star Rise" lançado pela Real World no final de 97, disco que reúne remisturas de temas gravados por Nusrat e Michael Brook, assinadas por Asian Dub Foundation, Fun~da~Mental, Talvin Singh e Nitin Sawhnew, entre outros.
Dado a forma de jogar em muitos tabuleiros que caracterizou a carreira e obra de NFAK, só nos resta ficar à espera que um dia surja uma outra homenagem a este ícone Sufi. E essa, feita por gente como Eddie Vedder, Peter Gabriel, Mick Jagger (que se confessa fã de NFAK), Trent Reznor e até mesmo o malogrado Jeff Buckley (caso aproveitem uma versão de 20 minutos de "Hulka-Hulka" que este gravou nas sessões de "Live at Sin-é").
Publicado por Luís Rei às abril 16, 2003 09:57 PM