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abril 27, 2003

Livros essenciais de músicas do mundo (parte 1)


Aproveitando a “boleia” dada pelo dia Mundial do Livro, celebrada no passado dia 23 do corrente mês, as Crónicas da Terra elaboraram um guia de leituras indispensáveis para o melómano rendido aos encantos das músicas do mundo.

ROUGH GUIDE - WORLD MUSIC - VOL1 E VOL2

Nova série da “bíblia” das músicas do mundo editada pelo britânico Simon Broughton, o homem que está à frente da não menos brilhante revista trimestral “Songlines”. Provavelmente, esta é a mais completa enciclopédia dedicada às músicas do mundo. Encontra-se organizada por grandes áreas geográficas, que por sua vez subdividem-se em países ou comunidades homogéneas. O Volume 1 abrange África, Europa e o Médio Oriente.
Já o Volume 2 contempla a América Latina e do Norte, as Caraíbas, o Subcontinente Indiano, a Ásia e o Pacífico. Destaque para artigos que enquadram de forma aprofundada a música de um país determinada por distintos géneros, instrumentos e grupos sociais, além das extensas listas de edições discográficas para cada secção, que justifica inteiramente o aviso que se pode ler na contracapa: “este livro irá expandir seriamente a sua colecção de CD”.

ROUGH GUIDE - WORLD MUSIC 100 ESSENTIAL CDs

Livro de bolso da série editada por Simon Broughton, abordando agora 100 discos essenciais de músicas do mundo, através um extenso texto e de ficha de intérpretes para cada obra. Uma colecção geograficamente dispersa, onde se sente a falta de referências nórdicas.

MUSIC HOUND WORLD - THE ESSENTIAL ALBUM GUIDE

Mais uma enciclopédia de músicas do mundo editada pelo americano Adam McGovern, agora organizada por biografia e discografia essencial de intérpretes, com pequenas caixas explicativas de géneros musicais. Contém ainda um CD sampler da editora canadiana Wicklow (Yat-kha, Värttinä, Bill Laswell) e o famoso texto “Why I Hate World Music” escrito por David Byrne no New York Times.

RHYTHM PLANET - THE GREAT WORLD MUSIC MAKERS

Um livro de entrevistas em formato de texto corrido e não muito aprofundadas, idealizado por Tom Schnabel, que espreme o sumo de muitos anos de trabalho ao serviço da rádio californiana KCRW. Apesar de, na maior parte dos casos as entrevistas serem demasiado curtas (algumas delas nem se podem chamar de entrevistas, são meros textos introdutórios de um artista) há, contudo, o mérito de o autor conseguir reunir muitas das personalidades mais interessantes deste universo. Algumas delas já deixaram o universo material: Amália Rodrigues, Baden Powell, Fela Kuti, Nusrat Fateh Ali Khan, Astor Piazzolla, Bob Marley, Umm Kulthum (às últimas duas não se pode chamar de entrevista pelas razões já expostas).

Publicado por Luís Rei às 03:38 AM

abril 16, 2003

NUSRAT FATEH ALI KHAN: Ecos do paraíso

Nusrat Fateh Ali Khan
Final Studio Recordings
American Recordings / Sony Músic

Vários Artistas
Hommage a NFAK
World Network / Megamúsica

Em Pleno dia Mundial da Voz, vale a pena recuperar uma das melhores vozes de sempre: a do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e o seu último disco de estúdio. Aproveito para recuperar dois textos escritos há já algum tempo. O primeiro para o sítio já extinto Músicnet e o segundo o antigo suplemento "Vidas" do semanário "O Independente"

Nusrat Fateh Ali Khan, durante a sua vida, contraiu bastantes inimigos no Paquistão por ter subvertido as rígidas regras da música qawwali de devoção a Deus, que os místicos islâmicos Sufis interpretam. As experiências que fez entre a rigidez da tradição qawwali e diversas áreas do mundo ocidental (rock, dança, experimentalismo) com gente tão ilustre quanto Michael Brook, Eddie Vedder e Massive Attack, entre outros, transformou-o num Judas aos olhos do universo islâmico. Este pioneirismo, apesar de contestado por muitos, serviu de motor de arranque para outros mestres do qawwali fazerem também eles outras experiências na área da pop dançável, casos de Shabaz e e dos sobrinhos de Nusrat, Rizwan-Muazzan Qawwali.

“The Final Studio Recordings” é, como o próprio nome indica, a última gravação em estúdio de NFAK, que ficou incompleta devido à trágica morte do cantor paquistanês provocado por ataque cardíaco em 1997. Produzido por Rick Rubin, com créditos firmados na área do rock e mais recentemente country, “The Final Studio Recordings” é uma surpreendente inversão de trajecto artístico de NFAK. Um regresso às origens e à música de amor e louvor ao profeta Maomé no formato mais puro – vozes, harmonium e tablas – isento de malabarismos de estúdio, próximo de registos como “Shahen-Shah” (1989). NFAK em fase terminal de vida e com a voz um pouco mais rouca, consegue manter a toda a potência e requebros hipnóticos do seu canto que, durante a sua vida terrena, nunca foi deste mundo. NFAK, enquanto foi vivo, afirmou que uma boa festa qawwali terá necessariamente de lançar um feitiço sobre a audiência, apesar de esta não compreender a língua. Em mais de duas horas de verdadeiro transe distribuídas por um CD duplo, o mestre cumpre a sua função: a de ser reduzir a distância entre o criador e a sua audiência, seja qual for o credo desta.

Nusrat Fateh Ali Khan a quem o coração atraiçoou no passado dia 16 de Agosto de 1997, morreu feliz. Com o sentimento de ter cumprido a sua missão na terra.

Nusrat, como Sufi que era, procurava na música e nos poemas da sua tradição espiritual levar a palavra de Alá aos quarto cantos do mundo.

Na compilação "Sufi Soul" (Network 97) pode ler-se as seguintes palavras de NFAK: "Quero transmitir a mensagem de paz e amor ao mundo e trazer a palavra de Deus bem próximo do povo. Para nós, a música dos Sufis é como uma ponte que une vários povos. Convida todos a darem as suas mãos. É o caminho da reconciliação."

De facto, se olharmos para a notável carreira de NFAK, chegamos à conclusão que este "quarto tenor" espalhou pelo mundo as mensagens do Islão e do Sufismo, impregnadas de amor e devoção, afecto e tranquilidade. Algumas das matérias base dos poemas que interpreta, muitos deles escritos há mais de 500 anos.

Venerado como um semi Deus no Paquistão, NFAK cedo foi descoberto no Ocidente por Peter Gabriel. O seu nome é sinónimo de metáforas que demonstram ligações indissociáveis entre Ocidente e Oriente, tradição e modernidade, sagrado e profano, por culpa das suas múltiplas experiências com músicos de áreas tão diversas como o rock, o trip hop, a dança e o experimentalismo.

Os seus trabalhos com Michael Brook, Massive Attack, Eddie Vedder, Bally Sagoo e Peter Gabriel, apesar de levarem as mensagens dos Sufis para fora do seu ambiente, foram responsáveis pelo surgir de inimigos no seio da comunidade de músicos qawwali (música de devoção dos Sufis), que sentiram a sua cultura contaminada.

A sua exemplar técnica vocal, plena de improviso em múltiplas inflexões, foi provavelmente melhor compreendida no Ocidente. Entre os inúmeros fãs de NFAK, Jeff Buckey foi aquele que melhor descreveu e interiorizou o sentimento de escutar um disco daquele que é considerado por muitos o Pavarotti asiático. Vale a pena ler as palavras de Jeff publicadas na compilação de NFAK "The Supreme Collection Vol 1", editada pela label americana Caroline Records dez dias depois da morte deste carismático paquistanês. Disco que viria a ser dedicado à memória de Jeff Buckey que morreu afogado, a 29 de Maio de 97, cerca de três meses antes do coração de NFAK ter batido pela última vez.

Jeff contava-nos que "a primeira vez que ouvi Nusrat Fateh Ali Khan estava em Harlem, em 1990. Eu e o meu companheiro de quarto ouvíamos música em volume muito alto. Nessa altura andávamos imersos no toque da maré ondulante dos ritmos sombrios de tablas do Punjab, espicaçados pelo sincronizado bater de palmas que irrompia de cima e de baixo num ritmo rígido e perfeito. (…) De repente escutámos uma, depois dez vozes pairando no ar como se tratasse de um bando de gansos ascendendo ao céu em formação. Finalmente a voz de NFAK. Parte Buda, parte demónio, parte anjo louco… a sua voz era suave e escaldante, simplesmente incomparável.

A mistura do improviso na arte clássica do 'qawwali', combinado com o seu estilo audacioso e a sua sensibilidade, transporta-o para uma categoria só sua, acima de todos os outros que se movem na sua área… Para os verdadeiros qawwalis todos os significados na música existem simultaneamente e não há necessidade de um dogma religioso. Há apenas a peregrinação em direcção à luz que procuramos no fundo do coração, que é a casa de Deus. Existe apenas a pura devoção e um feroz virtuosismo para ganhar asas e planar através da música. De dar um beijo nos olhos de Alá e cantar o seu olhar de amor pelos homens."

Apesar de ter NFAK como pano de fundo, esta "Hommage à Nusrat Fateh Ali Khan" é uma compilação que abre com um tema do antigo mestre do qawwali e depois vagueia algures entre a Síria, o Azerbeijão, Uzebequistão, Irão, Senegal, Índia, Paquistão e Punbjab, através de músicos associados à tradição Sufi. Esta poderia ser uma espécie de segundo volume da colecção "Sufi Soul". Mas não é. A diferença está em que todos os grupos, apesar de não efectuarem quaisquer "covers" de NFAK, escolheram poemas apropriados à memória do paquistanês e musicaram-nos. Ao longo dos dois discos ouvem-se mensagens místicas como "hoje é o dia em que a minha alma parte do meu corpo", "o meu amado regressou a casa", "a vida não é a mesma sem ti", ou mais realistas como: "sei que nada regressa".

Tal como em "Sufi Soul", esta é uma oportunidade para tomarmos um primeiro contacto com alguns nomes que merecem alguma atenção por parte de quem tem o ouvido mais exercitado para tais devoções sonoras. Caso de Munadjat Yulchieva, uma blues woman do Uzebequistão, dona de uma profunda e intensa voz. Atributos que contrariam a tese de NFAK, quando afirmava que as mulheres não têm resistência para cantar qawwali. Outras descobertas felizes prendem-se com a calorosa voz do iraniano Sharam Nazeri, ou a curiosidade de escutarmos o senegalês Cheik Lô em andamento bem diferente do seu disco de estreia "Né La Thiass". Ele que faz parte do movimento Sufi senegalês Baye Fall.

"Hommage à NFAK" é uma compilação no estilo mais puro e duro da tradição Sufi. Bem longe do conceito de "Star Rise" lançado pela Real World no final de 97, disco que reúne remisturas de temas gravados por Nusrat e Michael Brook, assinadas por Asian Dub Foundation, Fun~da~Mental, Talvin Singh e Nitin Sawhnew, entre outros.

Dado a forma de jogar em muitos tabuleiros que caracterizou a carreira e obra de NFAK, só nos resta ficar à espera que um dia surja uma outra homenagem a este ícone Sufi. E essa, feita por gente como Eddie Vedder, Peter Gabriel, Mick Jagger (que se confessa fã de NFAK), Trent Reznor e até mesmo o malogrado Jeff Buckley (caso aproveitem uma versão de 20 minutos de "Hulka-Hulka" que este gravou nas sessões de "Live at Sin-é").

Publicado por Luís Rei às 09:57 PM

abril 14, 2003

KIMMO POHONEN, KROKE, BORIS KOVAC: A Santíssima trindade da folk europeia

Kroke
Ten Pieces to Save the World
(Oriente / Megamúsica)

Kimmo Pohjonen
Kluster
(Rocadillo / Mundo da Canção)

Boris Kovac & Ladaaba Orkest
Ballads at the End of Time
(Piranha / Megamúsica)

Kroke, Kimmo Pohjonen e Boris Kovac encontram-se no clube restrito dos compositores e intérpretes da folk do velho continente que, após terem estudado a fundo as suas tradições musicais (afinal, a matriz do seu trabalho), conseguem apresentar soluções inovadoras, extravasando a geografia e as compartimentações estanques a que muitos géneros estavam sujeitos pelos mais puristas, conferindo uma nova e empolgante dimensão ao seu legado, sem necessidade de ceder aos clichés das modas da miscigenação de ocasião, impostas pelo mercado editorial e pelos produtores de espectáculos.

Os polacos Kroke de sólida formação clássica e jazzística, para quem a música klezmer é um modo de vida, continuam a esbater todas as fronteiras da música característica da diáspora judaica, aprofundando a ruptura com o modelo de base um pouco mais conservador (mas que, mãos dos Kroke é bastante criativo, basta escutar o álbum ao vivo “Live at The Pit") assente na tríade violino, contrabaixo e acordeão. “Sounds Of The Vanishing World” (de 99) fê-los olhar para o Universo através de uma janela em Cracóvia. Em “Ten Pieces To Save The World” os Kroke tornam-se cidadãos errantes do mundo, sem contudo perderem as suas maiores referências. O sangue klezmer a continua a correr-lhes nas veias. Em “Cave”, tema inicial, mantém o mesmo tom frenético, a sublime técnica com que mudam frequentemente de ritmo e peça, incorporando agora instrumentos de sopro, guitarra e percussão (além daquela que Tomasz Kukurba improvisa com o seu contra-baixo), em flashes de flamenco e música mediterrânica de aroma turco que encaixam na perfeição, como num puzzle, entre andamentos klezmer de euforia e tristeza. Em “Cave”, escutam-se pingos a cair por entre ambientes electrónicos e soturnos de contemplação aos Boards of Canada. “Montains” repleto de altos e baixos como as montanhas e a folk norueguesa, revela-nos o lado mais clássico-contemporâneo por via das cordas. Um álbum inovador, com soluções simples onde uns assobios, um estalar de dedos, um dedilhar do contra-baixo e um acordeão manso, chegam para construir uma peça carregada de swing (“Take It Easy”).

Embuido do espírito da Sibelius Academy e de um dos mais carismáticos professores de música finlandeses, Heikki Leitinen que aconselha primeiro a estudar a fundo a tradição e posteriormente a efectuar trabalho exploratório, a ir mais além, Kimmo Pohjonen cedo se revelou como um dos mais criativos, rebeldes e consistentes músicos da folk europeia. Já no seu anterior projecto, os Ottopasuuna, testava o experimentalismo (sobretudo em “Suokaasua”), incorporando ruídos de correntes a serem arrastadas, decompondo melodias, sem perder a adocicada sonoridade da folk finlandesa. No seu projecto a solo, Pohjonen, transcende-se, projectando momentos de tensão e ambientes sombrios kalevaliano-cibernéticos. “Kluster” é a parte dois de “Kielo” onde a folk purista é literalmente implodida. Aqui Pohjonen usa o acordeão como um instrumento de destruição maciça, ocupando todo o nosso espectro sonoro, inquietando-nos, amordaçando-nos a alma. As notas que tira do fole contaminado por overdubs e samples do próprio acordeão usados como percussão, são como mísseis que explodem nas nossas colunas, anunciando o apocalipse de forma tão veemente quanto a israelita Meira Asher.

Boris Kovac apresenta a sequela de “Last Balkan Tango”, música pós-apocalítica para fazer dançar quem sobreviveu ao fim do mundo, carregada de nostalgia, humor negro e elegância, de coordenadas bem definidas no grande caldeirão balcânico da extrema pobreza cigana, mas a piscar o olho às vetustas e decandentes valsas, cha cha chas e tango de requintada ostentação, prato forte dos bailes nobres dos grandes salões imperiais da velha e rica Europa. Há na música deste jugoslavo um certo toque minimal e cinéfilo, tornando-o numa opção pertinente para criar os ambientes sonoros dos maravilhosos universos imaginários de Peter Greenway, em alternativa a Michael Nyman. São deliciosas as passagens em que se escutam vozes de rua que parecem ser italianas e que se erguem dos escombros de uma guerra nuclear, ou quando o jazz swingante rasga a toda a tristeza melancólica que atravessa o álbum e devolve-nos a alegria esfuziante de uma big band dos anos 40 / 50.

Publicado por Luís Rei às 05:41 PM

abril 10, 2003

WATERSON CARTHY + ELIZA CARTHY: A família inglesa que adoramos e detestamos

Waterson: Carthy
Dark Light
Topic / Megamúsica

Eliza Carthy
Anglicana
Topic / Megamúsica

Clientes habituais das listas de fim de ano referentes aos melhores álbuns de folk, o clã Waterson: Carthy assina provavelmente o disco mais inspirado deste colectivo. Um disco que reconcilia os portugueses que assistiram recentemente à arrogância de Martin Carthy no Teatro Camões com a real família da folk britânica. Nessa curta actuação, o melhor que se viu foi o espírito endiabrado do novo elemento Tim Van Eyken (em melodion) em perfeita sintonia com o violino da também irreverente Eliza Carthy (muito melhor aqui do que enquanto solista). Ora escute-se o set "Balancy Straw". "A Dark Light", recebe toda essa energia renovada e, contrariamente ao que o título possa transparecer, é o álbum mais luminoso dos Waterson: Carthy. Este tributo aos cantores britânicos que influenciaram a carreira destes músicos, tem o dom de colocar o registo vocal de Norma Waterson num tom menos sofrido do que é habitual. Sublime a graciosidade que emana do dueto entre mãe e filha (Eliza) em "Crystal Spring". Martin Carthy abandonou o autoritarismo denotado no "Festival da Música e dos Portos" e o seu ego diluiu-se num trabalho que resulta mais pelo colectivo do que pelas individualidades, apesar da sua marcante carreira que representará sempre o passado o presente e o futuro da folk britânica.

Em "Anglicana" Eliza passou bruscamente da rebeldia para a maturidade, assinando o melhor disco da sua carreira, que sucede ao pior "Angels and Cigarretes". Um registo que estava a levá-la para o gueto de um sub produto folk punk de linhagem Oyster Band e Pogues. Agora sim, Eliza edita um álbum cujos pais, Martin Carthy e Norma Waterson, podem orgulhar-se. "Anglicana" pode bem ser considerado uma extensão do trabalho do trio desenvolvido no projecto Waterson: Carthy. Tendo como objectivo recuperar antigas canções britânicas e com elas o profundo sentimento de "englishness", Eliza eleva-se ao Olimpo das grandes divas da folk da velha albion, exibindo uma segurança e um tom cristalino de voz notável, sobretudo em "Just As The Tide Was Flowing" e "Willow Tree", onde se encontra mais exposta. Em "Anglicana", a autora definitivamente convence-se que para modernizar melodias e arranjos, não é necessário interpretar a música popular no formato de uma banda rock. Basta deixar-se levar pela simplicidade e agilidade dos músicos que a acompanham, ora no som metálico das cordas de uma guitarra acústica ("Limbo"), ora com o acordeão em diálogo infernal com o violino ("No Man's Jig") e que nos remete para aquele universo irlandês, pleno de espontaneidade e vigor.

Publicado por Luís Rei às 02:10 PM

VÄRTTINÄ: Depois da pop, em busca de raízes carelianas

Värttinä
6:12
(Resistencia / Sabotage)


Ao longo de mais de vinte anos, os finlandeses Värttinä já sobreviveram a um pouco de tudo. À perda da antiga líder Sari Kaasinen. Às constantes mudanças na formação, quer no quarteto de vozes femininas, quer no sexteto de instrumentistas. À chegada de músicos oriundos de outras paragens além Raakkylaa (a localidade natal que marcou a sonoridade da banda). À pressão de carregarem consigo pelo mundo o epíteto de principal banda da folk finlandesa (e uma das referências obrigatórias da tradição Escandinávia). E, consequentemente, à tentativa de equilíbrio de forças entre as raízes da música de Carélia e à formatação pop. As raparigas da frente continuam com o mesmo vigor e calor vocal que sempre as caracterizou, agora um pouco mais controladas relativamente aos excessos de uma coreografia algo de festival da canção. A base rítmica continua sólida como uma rocha, excessivamente eficiente, com certo prejuízo para a espontaneidade. "6:12", álbum ao vivo editado por uma das mais excitantes bandas que se pode ver em cima de um palco, surge num momento chave em que os Värttinä parecem estar a fazer uma inversão na sua carreira: a pouco e pouco vão deixando de fazer concessões às leis de mercado, deixando os arranjos pop, para mergulharem a fundo nas suas raízes rúnicas milenares (como é visível por exemplo em "Aijö"), à semelhança do que tem acontecido com os Hedningarna. O anterior álbum de estúdio, "Ilmatar" (provavelmente o melhor depois da fase mais depurada que tem em "Oi Dai" a principal referência), deu o mote. Alguns dos temas em "6:12" parecem prenunciar essa hipótese. No entanto, os laços do passado recente ainda estão bem apertados. Daí que as expectativas sejam grandes, relativamente a um próximo álbum de originais.

Publicado por Luís Rei às 01:46 PM

abril 09, 2003

MALINKY: A revolução britânica

Malinky
Three Ravens
Greentrax / Mundo da Canção

A experiência diz-nos que a folk da Grã-Bretanha, ao contrario da nórdica, dificilmente se compadece com grandes inovações. Apesar de pertencer à nova geração de músicos escoceses, os Malinky demarcam-se de bandas como os Burach, Shooglenifty ou Peatbog Fearies, ao abordarem canções escocesas e composições instrumentais irlandesas pela via acústica. As inebriantes vozes de Karine Polwart e Steve Byrne, devolvem-nos a celestial experiência de escutar um disco dos Planxty. O bouzouky de Byrne, a "button box" de McCann e o violino de Bews evocam a destreza mágica do novo sangue de uns Dervish. Fazendo apologia de "a tradição deve ser como sempre foi", os Malinky não estão, contudo presos ao passado. Vão temperando a sua música com pequenas mas certas doses de especiarias (o sussurrar de fundo na canção em accapella "The Sound of a Tear Not Cries", o "drone" provocado pelo violino em "Three Ravens"). A par com os galeses Fernhill, os Malinky figuram no lote das novas bandas britânicas com um futuro mais promissor.

Publicado por Luís Rei às 06:36 PM

abril 08, 2003

13º Intercéltico do Porto: Sinal Menos

MERCEDES PEÓN

Quem tinha a obrigação de defender um dos mais interessantes álbuns de folk editados recentemente, não podia apresentar um concerto destes. A actuação de Mercedes Peón foi a negação de tudo aquilo que “Isué” (o excelente álbum) representa: a diversidade da música tradicional galega aberta a miscigenações árabes e navegando aqui e ali por águas britânicas. O som não era o melhor, é certo, com total prejuízo para as gaitas e para a voz secundária. Mas, a constante opção por converter todos os temas num formato rock algo saudosista de guitarra eléctrica estafada e um baixo intensamente decalcado que, em vez de marcar o ritmo de forma discreta, tornou-se numa presença omnipresente e de grande protagonismo. Já alguém dizia que juntar comida boa com comida estragada, dá comida estragada e não comida assim-assim. Foi o que aconteceu. Nem zumbidos de sanfona, nem um pouco da riqueza dos instrumentos locais feitos com matéria natural (pinhas, conchas, etc). Apenas uma ENCHADA e uma pedra num batuque incipiente. Tudo, ou quase tudo foi remetido para o formato básico guitarra-baixo-bateria, com alguma gaita e pandeireta à espaços. Se quiséssemos escutar rock galego, ficaríamos bem melhor servidos com grupos como os Ressentidos ou os Siniestro Total.

Publicado por Luís Rei às 03:58 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Intermitente (2)

SHANTALLA

Foram vítimas da gritante falta de público no primeiro dia e da inesperada ausência da vocalista (e “bohdran player”) escocesa, Helen Flahenty. Não fizeram gala das mortíferas mudanças de tempo entre “jigs” e “reels”, que exibem nos seus dois discos editados pela belga Wild Boar Music (para breve, uma recensão crítica a “Seven Evenings, Seven Mornings”), acabando por se tornar nuns filhos de um Druída menor. Faltou vivacidade, alguma técnica sobretudo às uillean pipes de Michael Horgan e um melhor entrosamento entre o quarteto e a vocalista-bombeira contratada para a ocasião: Niamh Parsons, dona de uma excelente voz, que já esteve no Intercéltico há uns sete anos atrás com os Arcady. Ela que é uma representante da facção de mais clássica da folk das ilhas britânicas, trouxe sobretudo maior serenidade ao grupo, quando deveria incutir exactamente o contrário. Mais um colectivo que não deixou saudades.

Publicado por Luís Rei às 03:55 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Intermitente

GAITEIROS DE LISBOA

A noite foi aziaga para os Gaiteiros de Lisboa. O som não era o melhor. E o acerto dos aerofones também não. O factor novidade também não se fez sentir, num espectáculo que não acrescentou pouco acresentou às actuações da Aula Magna e de Sendim, já lá vai quase um ano. As percussões (mais um momento magnífico de José Salgueiro secundado por Paulo Charneca) e alguns dos temas de “Invasões Bárbaras” (como “o Menino Está na Neve”, “Lhoba”, “Nós Daqui Vos Dali”) foram a espaços despertando, mais pela técnica da força, do que pela força da técnica, o interesse da audiência que enchia a plateia (a tribuna encontrava-se vazia) do Coliseu. No entanto, alturas houve em que os Gaiteiros iam passando completamente ao lado do público, que não deu pelo rebentar do “Macaréu” nem pelo chilrear do pardal. Talvez por isso não tenha havido “Trângulo Mângulo” nem tão pouco “Subir Subir”, no encore. Apesar de este ter sido um concerto desinspirado e, talvez, pouco ensaiado, tal facto não mancha o estatuto de melhor e mais audacioso projecto de música de cariz tradicional em Portugal. No entanto, momentos destes não ajudam nada quem já devia, há muito, ter-se afirmado no circuito de folk / world europeu. Com um pouco mais de consistência que se consegue com mais ensaios, doseando melhor a criatividade e passando para um patamar técnico um pouco mais elevado, os Gaiteiros de Lisboa podem tornar-se, finalmente, numa das bandas de ponta da folk europeia. Sofrem um pouco do síndroma de alguns génios do futebol português: muito criativos e sedutores mas, por vezes, pouco eficazes.

Publicado por Luís Rei às 03:52 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Mais (2)

FOUR MEN AND THE DOG

Privados do seu entretainer mor, Gino Lupari, os irlandeses Four Man and The Dog, fizeram pela vida e mostraram-nos aquilo que melhor sabem fazer: cruzar o melhor da música tradicional irlandesa com algum bluegrass americano e algumas pinceladas de rhythm & blues (poucas). Sem efectuarem um espectáculo que prometera ser vistoso e interacção com o público, os músicos refugiaram-se na execução de mortíferas danças polkas, jigs e reels, com o bodhram a marcar os ritmos de constantes e deliciosos despiques entre violino e banjo (por vezes eram dois). Apesar de o banjo nos fazer saltar à memória os saloons, os chapéus de cowboy e as vertiginosas perseguições de cavalos, o banjo, como fez questão de frisar, Gerry O’Connor tornou-se um instrumento muito popular na Irlanda, devido à acção de Barney MacKeena dos Dubliners. Para o final, o grupo reservou-nos uma nova leitura de “Music For Found Harmonium” de Simon Jeffs, provavelmente o tema não tradicional mais interpretado por bandas folk, num registo assaz acelerado e repleto de emotividade, numa tríade violino-acordeão-guitarra de encher a alma.

Publicado por Luís Rei às 03:43 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Mais

BRIGADA VÍTOR JARA

Na antevisão, dizia-se que apesar do rigor, elegância e seriedade, a Brigada Vítor Jara dificilmente conseguiria apresentar arranjos arrojados do cancioneiro nacional. Pois enganei-me redondamente. Com a responsabilidade de abrir o festival e perante uma plateia despida de público (no primeiro dia), a Brigada deu provavelmente o melhor concerto que me recordo de ter visto deste colectivo. Arriscaram e trouxeram o sexteto Tomás Pimentel, com quem estavam a trabalhar há cerca de cinco dias, para o seu novo discon que, pelo que aqui foi revelado, promete. Se o colectivo da Brigada já é enorme, imagine-se mais uma meia dúzia de músicos em cima do palco. Uma verdadeira big band de cerca de 20 elementos que, apesar de não ter solistas, foi trabalhando o legado de mais de três décadas de canções com o requinte de um joalheiro habituado a manusear peças de filigrana, ora através de arranjos jazzísticos subtis que davam uma visão tridimensional ao legado popular, eficazmente acompanhado pelo pianista de serviço (que borrava um pouco o quadro quando optava pelos tapetes ambientais do sintetizador), ora em registos contidos de fanfarra. Um regalo para os ouvidos. Manuel Rocha, o porta-voz do grupo manteve a sua postura de excelente mestre de cerimónias, quer apresentando com à vontade os temas que se iam sucedendo, quer borrifando a assistência com um certo humor mordaz, ao explicar a génese do nome da banda, afirmando que tinham optado pelo lado dos “maus”, já que na outra trincheira estava o General Pinochet. Ainda sobre a situação crítica que se vive actualmente, Manuel Rocha afirmava ter um certo receio «de plantar um campo de trigo nas Lajes, pois temia ser vítima de danos colaterais». Mais do que pertencer a determinado eixo, a Brigada fez questão de frisar que pertence a «meio qualquer coisa».

Publicado por Luís Rei às 03:38 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Mais Mais

ALTAN

Que melhor banda poderia escolher a organização para fechar com chave de ouro mais uma edição do Intercéltico senão, provavelmente, o melhor colectivo irlandês da nova geração (apesar de estes já contarem com cerca de 20 anos de estrada)? Embora os mais recentes registos discográficos já não tenham a frescura e o efeito surpresa daqueles de há dez / quinze anos atrás (como por exemplo “Red Crow” ou “Island Angel”), os Altan, perante a plateia e tribuna do Coliseu praticamente cheios, cedo começaram a desferir golpes certeiros com sets de “jigs” e “reels”, causando a rendição imediata do público que nem sequer regateou aplausos eufóricos de pé, logo no segundo embate, num Intercéltico que até aqui ainda não tinha fervido verdadeiramente de emoção como em outros anos. A arma secreta dos Altan reside no toque certeiro, ágil e contagiante do acordeonista “voador”, Dermot Byrne, mais rápido do que a sua própria sombra, em infernal despique com os violinos inflamados de Mairead, a mentora e vocalista do colectivo de Donegal, e Ciarian Tourish. Razão tinham os antigos cristãos noruegueses em queimar tal instrumento por o considerar obra do demónio. Para por água na fervura, Mairéad alterna as danças demoníacas com baladas onde o seu registo vocal parece já não ser o mesmo de há uns anos atrás (ou pelo menos aquele que escutamos nos discos), no entanto é suficiente para nos transmitir a ideia de paraíso na terra, depois de experimentarmos o Inferno. Brilhante.

Publicado por Luís Rei às 03:30 PM

13º Intercéltico do Porto: Sem romper com a tradição

Longe da euforia dos outros anos, O Intercéltico completou a sua 13ª edição com um contigente notável de músicos irlandeses, sem bretãos, onde também se notou a ausência da continuidade das festividades em tons oficiais. Sim porque a festa continuou no Valentino’s com membros dos Galundum Galundiana.
Apesar de a primeira noite ter sido algo despida de público (será a crise? será a sobre oferta de espectáculos musiais? Será o facto de o Intercéltico ter este ano começado a uma quinta-feira?), o último dia que oferecia os Altan como cabeça de cartaz devolveu a animação e entusiasmo de edições anteriores. Apesar de este ano não ter havido a abertura a outros horizontes como aconteceu o ano passado com a tunisina Ghalia Benali (e em outros anos com Värttinä (Finlândia), Garmarna (Suécia) e Muziskás (Hungria), pela boa saúde do festival, as Crónicas da Terra recomendam que se retome tal prática, alargada a leste (Kroke, Vasmalom, Besh’o’Drom), aos países nórdicos (Frifot ou qualquer projecto que envolva Ale Möller e Lena Willemark, Kimmo Pohjonen, Mari Boine) ou ao novo sangue britânico (Malinky – Escócia, Ferhill – Gales, Poozies – Inglaterra, Swap – Inglaterra / Suécia). LR

Publicado por Luís Rei às 03:24 PM

abril 03, 2003

ORCHESTRA BAOBAB: Os "All Star" africanos

Orchestra Baobab
Specialist In All Styles
World Circuit / Megamúsica

Aproveitando a oportunidade de a Orchestra Baobab tocar em Aveiro, no próximo dia 11 de Abril, aqui fica uma recensão crítica ao álbum que a banda senegalesa vem promover. Texto publicado em Dezembro de 2002 na revista Beija Flor Natural.

A história repete-se. Depois de Buena Vista Social Club, o produtor Nick Gold volta promover o encontro de lendas das músicas do mundo em idade de reforma. Depois de Cuba, o Senegal. A orquestra que tocou durante os anos 70 e 80 para as principais cerimónias da elite política africana, mantém intacta a sonoridade de banda de baile audível na reedição do duplo álbum "Pirate's Choice". A sua música é mutante. Tanto está embebida em raízes locais mbalax, mandinga e sobretudo da região Casamance (de clima ainda mais tropical), como sofre um processo de ida e volta a Cuba recebendo influências rítmicas de salsa, de son e de bolero. Sem perder todas as qualidades técnicas que os notabilizaram, tanto na complementaridade vocal das cinco vozes de diferentes etnias, como na força da secção de metais (por vezes com ecos de afro beat nigeriano) e na destreza do guitarrista Barthelemy Attisso e seus intermináveis solos que chegam a evocar a música surf de Dick Dale (sobretudo em "Bul ma Miin"), a Orchestra Baobab regressa pela porta presidencial. Um registo com ares de super produção onde não falta a presença de Ibrahim Ferrer e Youssou N' Dour. O produtor Nick Gold sabe o que faz e, possivelmente, conseguiu construir o próximo fenómeno das músicas do mundo, pós Buena Vista Social Club.

Publicado por Luís Rei às 05:03 AM