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março 31, 2003

Drum'n'brass

Boban Markovic Orkestar
Live In Belgrade
Piranha / Megamúsica

King Naat Veliov & The Original Kokani Orkestar
Gypsy Folies
Plane / Megamúsica

Kokani Orkestar
Alone At My Wedding
Crammed / Megamúsica


Omnipresentes em qualquer celebração cigana de origem balcânica, conforme é possível constatar nos filmes do realizador Servo-croata Emir Kusturica, as brass bands são mais um espelho que reflecte a forma como os músicos desta etnia andarilha tornam extremamente flexível um formato simples (metais e percussões) que remonta às herméticas bandas militares turcas do Século XIX. Como é possível verificar em outro tipo de ensembles ou tarafs, os ciganos que cresceram sob a influência das memórias do Império Otomano são exímios a absorver melodias e ritmos de todos os quadrantes da "pangeia" balcânica, mediterrânica e asiática: Egipto, Turquia, Bulgária, Roménia, Macedónia, Grécia, Kosovo, Rajastão, Azerbaijão e Geórgia.

Boban Markovic é uma espécie de Mohamed Ali do trompete. "Live In Belgrade", gravado ao vivo no festival sérvio de brass bands da localidade Guca, revela porque é que Markovic tem sido imbatível nos duelos de pesos pesados de brass bands que o evento anualmente promove há já mais de 40 anos, forçando a organização a impedi-lo de voltar a participar, depois de ter conquistado por diversas vezes o trompete de ouro (principal galardão). Entre ritmos cocek, danças ora, uma composição de origem klezmer e a revisitação dos inevitáveis clássicos "Mesecina" e "Ederlezi", a música encorpada deste cigano Sérvio extravasa todas as fronteiras estilísticas. Além da notável técnica de Markovic que ora se perde em improvisos jazzísticos, ora em exímio controlo do fôlego, mantendo por mais de trinta segundos constante uma nota do seu trompete, de acrescentar ainda a atitude de banda indomável que nada deve à rudeza do rock e à crueza do funk, repescando por vezes ritmos de samba.

King Naat Veliov, outro exímio do trompete, abandonou o anterior projecto que liderava (a Kocani Orkestar), mas não conseguiu levar o nome da banda consigo. Facto que não o impediu mesmo assim de formar a Original Kocani Orkestar com familiares seus. O clã Veliov, ciganos de origem turca, prosseguem a matriz de "L'orient Est Rouge" (terceiro álbum da KO), introduzem a darbouka e deixam-se influenciar melodicamente cada vez mais pelo vento que sopra do continente Vermelho. Naat Veliov mantém o seu instinto mortífero de brincar com as constantes variações rítmicas numa melodia de, por exemplo, um 5/8 para um 11/8, conferindo-lhe um estatuto de um dos mais virtuosos músicos ciganos a par de Markovic e Ferus Mustafov.

Além das habituais brass bands de fanfarra que se ocupam nas principais celebrações ciganas de andar pelas ruas a conduzir os noivos e respectivas famílias aos devidos locais da cerimónia (no caso de um casamento), existe ainda na Macedónia a banda de banquete. Esta distingue-se da primeira pela inclusão de darbouka, clarinete, banjo (tocado como um oud), acordião e um cantor à estrutura inicial (bombo, tambor e trompete e tuba). Além da base brass, a Kocani Orkestar de origem ganha uma dimensão melódica e rítmica turca / búlgara mais acentuada, através de uma estrutura pop. No entanto, com a saída de Naat Veliov, esta formação perdeu uma certa capacidade explosiva e de improviso.

Publicado por Luís Rei às 04:31 AM

março 16, 2003

No Sahara, a música é um bálsamo para o espírito

Vários Artistas
Desert Blues 2
Network / Megamúsica

As fronteiras impostas pelos impérios coloniais do Ocidente dividiram África em quadrados feitos de regua e esquadro, aos quais se dão o nome de países, mas não conseguiram diluir os laços familiares e culturais do sistema tribal. Os griots não são fenómeno exclusivo do Mali, extendendo-se toda a África Ocidental (Senegal, Gâmbia, Guiné). Tal como os tuareges, longe de habitarem países como Marrocos, Argélia ou Líbia, são um povo oriundo do extenso deserto do Sara. Neste “oceano sem água”, a música é vagarosa, escarna a pele e o osso, até à alma, dos blues man islâmicos que cantam a rebelião e o ostracismo de quem nunca conheceu fronteiras nem governos tirânicos. A música, além de refúgio, é um bálsamo para o espírito. Tem poderes curativos (gnawa) e une a diversidade tribal dos mandigas, fulanis e sonrais do baixo Sara, onde o Rio Níger fertiliza a terra árida e conduz-nos à África de floresta densa e tropical. Aqui o tempo é marcado pelo nascer e pôr do sol. O melhor é mesmo contemplarmos o elevado grau de pureza que possuem as vozes sarauis (Tartit,Aziza Brahim), os ritmos do wassolou (Nahawa Doumbia) e as cordas acústicas de guitarra e cora dessa meca musical denominada Mali (Boubacar Traoré, Rokia Traoré, Habib Koite, Djelimadi Tounkará), se possível acompanhado de um chá de hortelã e menta, num qualquer terraço com vista para o areal de perder de vista. Mas esta sequela (“Desert Blues”) da mais bem sucedida compilação da editora alemã Network, não esquece a contaminação ocidental fusionista. Apesar de se poder pensar o pior do rai, Cheb Mami e Kadda Cherif Hadria apanharam as ondas jazzísticas do melhor que a tradição da cidade argelina e costeira de Oran. O lado da contaminação ocidental é ainda reforçado pela voz da etíope Netsanet Mellessé, que brota das profundezas da África negra, para um ambiente de obscuridade inimista tão característico na música que imortalizou Mahmoud Ahmed.

Publicado por Luís Rei às 06:31 PM