novembro 25, 2003

Cibelle: O camaleão e a Leoa

Sons em Transito, Teatro Aveirense, 21Nov03

É com um certo sabor a injustiça que leio algumas críticas ao concerto de Cibelle, na imprensa nacional de referência. Se um diz mata, o outro diz esfola. Houve quem gastasse mais de metade do pouco espaço que tem, para referenciar o extenso rol de azares e problemas técnicos dessa noite. Será que Cibelle garantirá um lugar no Guiness na categoria do concerto mais desastrado até hoje realizado? Houve de tudo: problemas nos microfones, um comprometedor curto-circuito, uma correia de uma guitarra à tiracolo que caiu (como se isso não acontecesse regularmente – vá lá, o guitarrista não partiu nenhuma corda). Só faltou mesmo evocar a carta astral como forma de argumentar que os músicos não deveriam ter saído do hotel naquela noite. Estranho que, quem esboçou tantos pormenores num pequeno texto, não soubesse distinguir um vibrafone de um xilofone, nem tivesse conhecimento de que Suba é o nome de um falecido produtor jugoslavo e não a designação de um projecto musical. O outro escriba disse simplesmente – curto e grosso - que eles valeram zero. Ponto final. É a “puta da subjectividade” em forma.

É certo que Cibelle ainda tem pouca experiência de palco. É certo que o espectáculo teve incidentes a mais, desde falhas contínuas no som dos microfones a um comprometedor curto-circuito que fez parar o espectáculo durante uns cinco minutos. É certo que Cibelle, aqui e ali desafina um pouco e até chega a dar um ar de menina mimada. Mas, gabe-se-lhe o profissionalismo com que foi contornando os problemas que encontrou pela frente; como foi quebrando, um a um, os “galhos” e o gelo da assistência, improvisando, contando pequenas histórias e pegando nas congas, durante o hiato do curto-circuito; como tornou elástica a sua música e a sua actuação, balançando entre a densidade noise das guitarras e dos sintetizadores analógicos e a simplicidade de um violão acompanhando a despida voz de Cibelle, numa singular canção baiana. Apesar de uma certa ingenuidade, Cibelle “agarrou sempre o touro pelos cornos”. Se alguns erros mais se notaram, deveram-se à inquietude, à constante necessidade de experimentação da jovem cantora. Ela que sempre que podia, tinha dois micros na mão. Um de amplificação normal, o outro ligado a um pedal de reverberação, de forma a projectar ecos contínuos na sua voz. Por vezes, sentia-se o espírito Mutantes a rondar por ali.
Cibelle em palco mistura a pele de camaleão com a alma de leoa. A pedalada dela é enorme. As pilhas duram, duram e duram. Pensamos se ela não estará dopada, tal a entrega e ausência de cansaço que demonstrou ao longo de uma hora e meia. A secundá-la, uma discreta e eficiente banda de seis elementos. Meticuloso o egípcio Tarek Abou-Chanab na criação de ambientes densos e oníricos, através do seu vibrafone e de teclados analógicos. O mesmo se pode dizer do guitarrista brasileiro, Filipe Pagani ao mostrar um vasto leque de guitarras languidas, plenas de distorção e wah wah. E do baterista italiano, Vladimiro Carboni, ao exibir um mancial rítmico assaz diversificado, em todo semelhante ao resultado final: uma “middle of nowere village” que cruza ambientes electro-jazz, sombrios e intimistas, acabados de sair dos estúdios berlinenses da editora Compost, algumas pinceladas de bossa nova e de samba revistos a partir da Europa e algum ruído e um certo espírito “screamadélico”. Apesar de tudo, valeu.

Publicado por Luís Rei em novembro 25, 2003 05:10 AM | TrackBack
Comentários

Luís: antes de mais, uma correcção: Suba é nome de produtor, sim, mas não o seu nome de nascimento. Consideremo-lo nome artístico.

Quanto ao texto: o que está escrito, se reparares bem, é que aquele concerto, em termos estéticos, é zero. E é-o. Se fechássemos os olhos ao "espectáculo" e nos concentrássemos apenas na música - ficaríamos angustiados. Ora, isso não implica que não tivessem havido atenuantes. E aí, desculpa lá, mas eu referi-as. E acabei o texto dizendo que é necessário outro concerto para avaliarmos o real valor da senhora (neste momento) em palco.

Gosto muito do disco - mas as desafinações constantes deixam-me desconfiado. E, Luís, não sejamos mais papistas que o Papa no que toca aos nossos "amores". A "puta da objectividade" vem primeiro.

Um grande abraço, JB

Afixado por: jb em novembro 25, 2003 07:29 AM

Um concerto que polariza opiniões deixa-me ainda com mais pena por não ter estado presente. Mas o que realmente me tem intrigado são as reacções mornas (estou a ser generoso…) que o disco despertou por cá. Recomendei-o logo em Agosto (pouco depois da entrevista da Cibelle ao Y) no Fórum Sons mas ninguém se mostrou especialmente entusiasmado com o álbum. A Rolling Stone fala em “Brasil futurista” e o disco está a tornar-se um fenómeno (merecido) de reconhecimento internacional, meses depois do lançamento. Para quem tenha dúvidas, ainda digo mais: arruma claramente o “São Paulo Confessions” ou qualquer outra tradução da tradição brasileira em linguagens electrónicas que eu tenha ouvido até agora.

Cláudio Pedrosa

Afixado por: Cláudio Pedrosa em novembro 25, 2003 11:41 PM

Desculpe-me caros senhores, mas desafino nao ouvi algum.
A senhora fez juz ao seu disco, apesar dos problemas tecnicos, mateve-se em forma.
tenho apenas congratulacoes
Maria

Afixado por: Maria Clara em novembro 26, 2003 04:57 PM

caro luís,
lamentávelmente não pude estar em aveiro o último fim de semana, mas gostaria de saber a tua opinião em relação ao concerto dos at-tambur.
carlos

Afixado por: carlos seixas em novembro 26, 2003 06:07 PM

Só alguns esclarecimentos:

- O SET está totalmente preparado para receber críticas menos positivas
- O concerto da Cibelle esteve longe de ser perfeito
- Existiram problemas técnicos da responsabilidade da banda e dos seus técnicos: micros, som demasiado alto e estridente
- Existiu um problema técnico grave provocado ou por um alarme contra incêndios por desligar ou por uma garrafa de água derrubada pela Cibelle em cima de uma entrada eléctrica. Uma destas causas activou o sistema de segurança do teatro que deitou abaixo o P.A.
- A Cibelle aguentou-se valentemente e reagiou de forma extraordinária, segurando a sala e conquistando o público a partir daí
- As críticas publicadas no DN e no Público foram injustas e exageradas. Os músicos da Cibelle são do melhor que há em Inglaterra hoje em dia. A editora e os Morcheeba estão a investir muito nela e foram escolhidos a dedo. A questão da correia da guitarra dá vontade de rir!! Não foi a meio de uma música e é uma coisa que acontece frequentemente.
- O que se ouviu no concerto foi um vibrafone e não um xilofone como refere o DN
- Gostava de saber como é que o Público avalia se as pessoas que estão a aplaudir de pé o estão a fazer por favor ou se é sincero
- Entre os criticos que gostaram do concerto temos António Pires ( Blitz ), José Manuel Simões ( CM ), Alexandre Silva ( JN ), Maria José Santana ( Comércio do Porto ) e o Luís...

Um abraço para todos!

Afixado por: Vasco Sacramento em novembro 26, 2003 06:26 PM


Boa noite, peço desculpa pelo atraso desta resposta, mas questões de ordem familiar e laboral impediram-me de o fazer mais cedo.

JB, além de não teres sido o principal visado na minha crítica - apenas referi o "vale zero", não quero retirar valor nenhum aos teus escritos. Antes pelo contrário. És dos escribas que, actualmente, mais gozo me dá lêr. Os teus textos variam geralmente entre o bom e o excelente e a entrevista aos Ojos de Brujo é um desses casos de nota máxima. Gosto da fluidez das palavras, da simplicidade e objectividade, sem rodeios.

Mas, mesmo que em termos estéticos digas que a Cibelle e sua banda vale zero, penso que adoptas uma postura algo injusta.
Contrariamente à opinião do Cláudio, o disco até nem me tocou especialmente. Gostei muito mais do "São Paulo Confessions" de Suba. Provavelmente, não irá figurar na lista dos 10 ou dos 20 discos de 2003. Mas gostei do profissionalismo da banda e, sobretudo, da atitude da Cibelle. E aqui não é uma questão de amor ou de paixão, é uma questão de admiração pela forma como soube contornar todas as adversidades. Ela não estava ali a fazer nenhum frete nem tão pouco a encarnar uma personagem artística. Despiu-se e esforçou-se para que tudo corresse minimamente bem. Aprecio muito mais o esforço do que o talento. Pois, o talento, por vezes, torna-nos preguiçosos.
Mesmo que fechássemos os olhos houve ali momentos muito distintos. A espiritualidade afro-brasileira de "iemanjá", a fineza daquela canção baiana apenas com voz e violão e toda a amálgama sonora que não é muito diferente do que se escuta no disco. Ou é?

Fico com a sensação de que não estivemos no mesmo concerto.

Apesar desta divergência de opiniões e como já havia referido no forum sons que actualmente se encontra fora de serviço, foste das pessoas que mais gostei de conhecer (e a tua rapariga também). Inesquecíveis aqueles soukous zairenses na discoteca afro-xunga lá do sítio :D



Afixado por: Yggdrasil em novembro 27, 2003 04:43 AM

Carlos Seixas, não estive no concerto de quinta-feira e não vou estar, infelizmente, no do Manecas (também quinta). No entanto, se fores à categoria "ao vivo" deste blog encontras um texto sobre o concerto dos At-tambur de Cascais (teatro Gil Vicente em Setembro de 2003) e dos CantAutores na Festa do Avante.

Afixado por: Yggdrasil em novembro 27, 2003 04:47 AM
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