Ere Mela Mela de Mahmoud Ahmed é um dos meus discos preferidos de sempre de músicas do mundo. E do Cláudio Pedrosa aka Familycat, também. Pedi-lhe para escrever um texto sobre esta pedra basilar da música africana e ele não se fez rogado. Quem melhor que ele para dissertar sobre esta lenda etíope?

Para muita gente, a Etiópia e a Eritreia apenas evocam a brutalidade do regime Mengistu e as imagens dilacerantes de seres humanos subnutridos que encheram ecrãs de televisão durante a década de 80. No entanto, durante os anos 60 e até meados da década de 70, a principal metrópole da antiga colónia italiana, Addis Ababa, assistiu à erupção de formas musicais que combinavam a tradição etíope com instrumentos ocidentais perfumando o ar nocturno da capital com sons tão singulares quanto fascinantes. Ao longos dos últimos anos, e coincidindo com a maior abertura política, Francis Falceto, um apaixonado pela Etiópia e pelas suas músicas, tem conduzido o trabalho exemplar e verdadeiramente abençoado de resgatar do esquecimento as gravações desta época de ouro e dos seus heróis desconhecidos, Mahmoud Ahmed, Muluqen Mellesse, Tlahoun Gessesse, a Ibex Band ou a Roha Band.
Editados em CD pela Buda Musique, os volumes da série Ethiopiques compilam as poucas dezenas de álbuns e centenas de singles editados entre 1969 e 1978 e prensados em lugares tão improváveis como Índia, Quénia, Líbano ou Itália. A jóia da coroa, Era Mela Mela, do superlativo Mahmoud Ahmed (vol. 7 da série Ethiopiques), sempre circulou como um segredo bem guardado. Nos anos 80 teve mesmo direito a uma oportuna edição em CD (extraída directamente do vinil) pela divisão da Crammed dedicada ás músicas do mundo.
Mahmoud Ahmed não esgota a diversidade da música etíope e da Eritreia mas é, indiscutivelmente, o seu expoente máximo: a “alma” de Addis, o mestre do “eskeusta” – um arrepio de êxtase sobre os ombros etíopes que atrai a pista de dança. Ere Mela Mela, gravado em Addis Ababa entre 1975 e 1978, com a Ibex Band, é um disco prodigioso que deixa o ouvinte sufocado entre o desejo irreprimível de obedecer ao groove sinuoso e o suspense conferido pelo dramatismo e intensidade da voz de Mahmoud Ahmed. O resultado pode ser comparado a um híbrido febril de James Brown e de Nusrat Fateh Ali Khan, ambos mesmerizados por uma diabólica orquestra de sopros, possuídos por saxofones e ritmos sinistros que desfiam melodias através da famosa escala de cinco notas longamente intervaladas que conferem um carácter impreciso à música.
Ere Mela Mela representa, afinal, soul music assimilada à tradição musical etíope. E pouco interessa o que Mahmoud Ahmed canta a partir do momento em que a sua voz se instala como um poderoso condutor de emoções. A libertação catártica de fantasmas é uma linguagem universal.
Num registo mais pessoal, Ere Mela Mela abriu de par em par a minha paixão pela música do mundo que, antes, estava apenas entreaberta por aperitivos como Buena Vista Social Club e Desert Blues. Mais do que combinar coordenadas mais ou menos familiares, a audição desta música era, de facto, uma viagem (no tempo e espaço) a um lugar irreconhecível e inverosímil: Addis Ababa, década de 70, entre noites passadas em bares fumarentos e misteriosos numa África soturna e inesperada. Apetece regressar vezes sem conta. (Cláudio Pedrosa)