Já não ia à Festa do Avante há alguns anos. A falta de nomes internacionais que me motivem a sair de casa tem sido uma constante. Este ano não foi excepção. Só que, esta 27ª edição dava-me a oportunidade de ver num só fim-de-semana uma mão cheia de grupos portugueses. Conhecer finalmente as Tucanas e os CantAutores. Ver pela primeira vez em palco a magia de Danças Ocultas. Reviver bons momentos do Cantigas do Maio e do Intercéltico do Porto, com as algarvias Moçoilas e a Brigada Vìtor Jará, acompanhada do sexteto de metais de Tomás Pimentel. Saborear ao vivo aquele que é um dos grandes discos da colheita de 2003 de música portuguesa: ?Terra de Abrigo?, da Ronda dos Quatro Caminhos?. Verificar a evolução do Realejo que, além de ter sofrido mudanças na sua formação, tem trilhado caminhos mais dançáveis, pondo de lado a anterior estética mais classicista.
TUCANAS. No início era o tambor.
A noite de sexta-feira foi aziaga. Tinha saído de casa pouco antes das nove, com esperança de ainda ver a Filipa Pais. Só que a ponte 25 de Abril e a falta de estacionamento na Amora não me deixou chegar antes das dez e meia. Mesmo a tempo de ver as Tucanas de início. Elas que arrastam consigo uma considerável audiência que sobrelotou o Auditório 1º de Maio, onde era dificílimo de entrar, em parte, por culpa daqueles que se sentavam no chão, roubando espaço ao interior e provocando um ajuntamento caótico nas saídas. Uma constante nos restantes dias.
Com uma agenda de concertos sobrecarregada e sem qualquer disco gravado, as Tucanas constituem um verdadeiro fenómeno de popularidade, construída palco a palco. O ?grupo de percussão criativa?, como elas próprias se autodefinem, apresenta-se extremamente bem oleado. Irrepreensíveis ao nível coreográfico. Sente-se que há trabalho de casa exaustivo (e quilómetros de estrada em cima), quer quando estão a bater na chapa e no plástico, quer quando vêm para a frente do palco e percutem com as mãos nas pernas, no peito e nos braços umas das outras. Bonito de se ver. O projecto é ambicioso. Explora ritmos tribais do coração de África. Resgata aos anos 80 o espírito pós punk e industrial de Neubauten e de Test Dept. Ecoa a Japão, através dos tais bidons de plástico, tocados como se fossem gigantes taikos. O ritmo é tribal, é ancestral, é primário, é agressivo e arrebatador. É lúdico, inocente e infantil. Como conceito é excelente. Só que, nestes moldes, dificilmente farão um disco audível do princípio ao fim, a não ser que convidem outros músicos, com outros instrumentos (aerofones e cordofones). Ah! Já agora, trabalhem mais essas vozes, sff!
MOÇOILAS. O encanto rural
Injustamente, as Moçoilas foram vítimas dos atrasos e do mau alinhamento do palco do Auditório 1º de Maio, tocando para dezenas de pessoas, num espaço que pouco antes tinha rebentado pelas costuras. Os resistentes, esses, regozijaram com a graça das Mêçoilas na sua interpretação idiossincrática da tradição de repertório oral, maioritariamente, oriundo da Serra o Caldeirão. Singelas, donas de um divino encanto rural, de um delicioso sotaque do sul e um humor fresco e alcoviteiro, as quatro vozes enchem todo o palco. Instrumentos para quê? Não Precisam. Elas entram de mansinho, metem a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e disparam com um corridinho. Além de recuperarem repertório regional, as Mêçoilas chegam mesmo a adaptar versos para a realidade urbana actual (dando conta de vizinhas que vêem o canal 18) e propositamente para a Festa do Avante, cantando uma espécie de cartão de visita. Que pena não ter a letra aqui à mão. Levem-nas para o estrangeiro que elas merecem.
MARIA ALICE para quê complicar?
Não gostei de Maria Alice, apesar da calorosa voz desta. O desfilar de mornas e coladeras provenientes sobretudo do seu último disco, ?Lágrima e Súplica?, foi frio e distante do pouco público. Nota-se que há bons músicos, mas a atitude destes é demasiado previsível. Tentam construir uma sonoridade sumptuosa. Para quê um baterista e um percussionista na mesma banda? É que o som é demasiado linear para tanto aparato. De vez em quando, lá se chega à frente o guitarrista. Com um solo excessivamente cerebral, pouco emotivo. É a típica banda de animação nocturna, cujo fraque que envergam prende-lhes os movimentos. Oxalá perdessem metade da ?cagança? e tocassem com os pés descalços e de fato de macaco.
Publicado por Luís Rei em setembro 10, 2003 04:50 AM | TrackBack